segunda-feira, 4 de maio de 2009
Público
Tecla a tecla, somente com um indicador,
Paciente e certo do que está a tocar.
Umas poucas pessoas o observam.
Ajudam com olhares, que na falta de talento ou técnica,
Tocam, somente, em apoio.
O piano de rua, simples e ao mesmo tempo instigador,
Em uma sala da Estação da Luz,
Ganha vida com o rapaz,
Assim como o ganha em outras execuções.
O rapaz, enfim, chega ao ápice da canção e arrepia!
Mesmo com a simplicidade,
Mesmo com o tocar de um dedo só,
Mesmo com a correria da estação,
Em plena Virada Cultural.
Era o refrão extremamente melancólico,
De Trenzinho do Caipira,
De Villa Lobos, mas também daquele rapaz,
E também de quem ouviu e reconheceu.
E também do guarda da estação,
Da menina que puxou a mão da mãe,
Para ver que brinquedo era aquele.
A música, ao acesso de todos.
O piano de rua, público.
Ao toque de todos.
É questão de sentar-se e iniciar o dedilhado.
Questão de parar e ouvir o clássico.
Sentir e ressoar por todo o dia.
Liquidação

Direto para a fila ao redor e além do Teatro Municipal, um dos pontos mais concorridos do evento.
Fila assustadora para assistir Tom Zé, em sua “Grande Liquidação” (de 1968), mas ainda era preciso enfrentar público de Egberto Gismonti (que se apresentaria antes), que estava na mesma fila. Haja animação, pois eram apenas 21 horas (o show de Tom seria à meia noite).
Muito aperto, desorganização (foi onde se entendeu como devem se sentir os espermatozóides, na disputa por um lugar no óvulo).
Mas um bom lugar na plateia.
De repente, uma protestante aos berros, contra a desorganização da Virada, que tenta atrapalhar o início da apresentação.
Mas a recompensa que valeria a noite:
“São, São Paulo, quanta dor.
Falsete do vocal de apoio feminino ruim.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Chance
Esse carinha mostrou que é bom.
Se apresentou no Britain's Got Talent, programa de calouros britânico.
Desde a primeira música, “Valerie”, conhecida com Amy Winehouse (e reprovada pelo jurado), o menino já mostra intimidade com o que se dispõe a fazer!
Quando opta por Michael Jackson, em “Who’s lovin’ you”, então ele emociona!
A imagem por si só basta!
Há semanas havia visto Susan Boyle no blog da Lorena, antes mesmo de sair em toda a rede brasileira e também fiquei impressionado.
Mas agora, me deparei com esse cantor de 12 anos.
Shaheen é daqueles que você ouve, vive e deseja que o melhor da vida aconteça a ele.
Alerta
Não ande nos bares, esqueça os amigos
Não pare nas praças, não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida.”
México
Um surto assusta o mundo.
A gripe suína.
103 mortes, 400 hospitalizados, mais de 1.600 suspeitos.
Casos não letais nos EUA e Canadá.
Outros possíveis na Europa, Israel e Nova Zelândia.
Milhões de mexicanos em casa no fim de semana.
Sem eventos públicos, sem futebol, museus, bares.
Sem proximidade, sem aperto de mão.
Foto: Richard Aldrin
Produção: Eli Carlos Vieira
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Brincadeira
Pulos, acrobacias exibidamente apresentadas.
Um deles se diverte só, no rio.
Sua habilidade no lançamento de pedras na água,
Fazendo-a saltitar sem afundar, atraiu atenção de todos.
Em um dos lançamentos a pedra esbarra e não salta adiante.
Mais um lançamento e a pedra empaca de novo.
Mais uma, mais uma.
Até que na água algo se move,
E vão mais umas pedras.
De repente, surpresa.
O monte se vira.
Era um corpo humano em decomposição.
Choque.
Para mais espanto, o amigo continua com as pedras.
“Medo? Temos de temer os vivos!”
Ao redor aparecem nativos.
“Não faça isso, cara. Ele é nosso amigo e está desaparecido há dias.”
Há dias, mas não está mais.
Eles haviam acabado de encontrá-lo.
Vítima de algum acerto de contas, talvez.
Vítima.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Desejos
Ele não ligou. Não veio.
Ela foi até ele e descobriu sinais inesperados,
Que provocaram suspeitas.
Saiu sem explicação. Nem a dele.
Diante da indiferença do cara,
Marcou com outro, aquele que vinha ignorando,
Desde que começou a sair com o quarentão.
Mas brochou, chorou. Não deu.
Ele compreendeu e a aconselhou a assumir o que sente pelo cara.
Que ela nunca apresentara em casa,
Pois sabe os pais que tem,
E sabe o quanto pesaria assumir os quase 20 anos dele à frente dela.
Talvez seja esse o motivo,
Da indiferença dele, disfarçada em excesso de segurança.
Toda vez que ela cobra mais amor,
Do que sexo.
Talvez ela realmente o ame.
Talvez ela tenha de dar mais valor a ele.
Pode ser que ele, diante da falta de valorização dela,
Nem espere nada além.
Do que se tem.
E assim passam os dias,
Distantes do que se deseja.
O que se deseja?
Deseja?
Talvez...
segunda-feira, 20 de abril de 2009
E.C.
Nome composto que foi escolhido pelo meu pai, Elias.
Eli, três letras, simples.
Apesar de milhares de perguntas, não, NÃO É APELIDO.
Feminino, masculino. Unissex.
Confusão que ocorre ainda hoje.
"Por favor a Dona Eli?"
"É ele quem fala!"
"Perdão, é que normalmente esse nome é de mulher."
"Mas nesse caso, não. É meu mesmo!"
Sem falar que, ao telefone a dicção fica comprometida.
"Alô, aqui é o Eli quem fala..."
"Ele quem?" ou "Edir? Ecyr? Elis? Elir" (nunca palpitam Eli)
"É Eli: ê, éle, i. Eli"
Em uma época, no trabalho,
Tentei utilizar Carlos, como se fosse um estepe.
Mas não pegou. Muitos clientes que retornavam, achavam que eu mentira.
Pois na secretaria só me conheciam por Eli.
O motivo de Eli, segundo meu pai, vem da homenagem ao radialista Eli Corrêa.
Preferido dele e que eu cresci ouvindo. E ainda ouço. Ouvi ainda hoje.

Daquelas cartas depois do almoço, algumas assustadoras.
Cartas de tragédias, medo, amor, suspense, mandadas por ouvintes.
"Que saudades de você", a "Sessão da saudade".
Quase o que faço às vezes aqui: escrever histórias que a mim chegam, contam.
Muita gente diz "Seu nome é Eli? Do Eli Corrêa?"
E soltam "Oiiiiiiiiiii, geeeeeeennnnntiiiii", bordão do radialista.
Conhecido como homem sorriso do rádio.
Uma vez meu pai me liga chorando. Era um 4 de abril.
Aniversário dele. Eu havia mandado um email ao Eli Corrêa,
Contando sobre mim, sobre a homenagem feita por meu pai a ele.
"Eli Corrêa em pessoa me deu parabéns pelo rádio",
Disse meu pai às lágrimas.
Já o motivo de Carlos, é de Roberto Carlos! O Rei.
Outra homenagem.

Outro que cresci ouvindo. E ouço bem menos hoje.
É que que para mim, ele já foi bom.
Agora o ritmos de seus discos são fracos, insossos, sem doce.
Como playbacks. Canções sem novidade, sem vocal nem letras.
Voltou no tempo. Voltou não. Parou mesmo. Se voltasse, seria bom...
Eu tinha um compacto, que sempre ouvi quando tinha uns cinco anos.
"Jesus Cristo" de um lado e a canção do outro eu não lembro.
Só ouvia a mesma música.
Mas meu pai. Ele ainda ouve Roberto até hoje.
Já achei muito brega essa coisa de carregar nome em homenagem a "artistas".
Mas, nome é nome. E cada um tem o que lhe foi dado!
Gosto da simplicidade do Eli.
E assim é!
Aqui, uma canção na voz do Roberto Carlos.
Lembra meu pai. Que, na falta de uma mãe, sempre foi um super pai para mim.
Arranjo de cordas muito sensível e forte.
Belo.
E uma versão mais latina. Na voz de Tamara, cantora pop espanhola, que dedicou um disco inteiro a Roberto Carlos. Interessante.
Vintecinco
Boas expectativas.
Dezoito de abril.
Vinte e cinco anos.
Surpresas.
Ligações inesperadas.
Direito a balada de graça, na faixa e bis na mesma semana.
Uma foto na página social do meu próprio jornal.
Lembranças com o pai,
Que a mesma idade tinha,
Quando nasci.
Do apagão que se deu em toda São Paulo, naquele dia, em 1984.
Da dificuldade que levou a uma primeira cesárea.
E alguns dias de internação para pegar uma corzinha na incubadora.
Parabéns e desejos de todos os tipos.
Sempre um dia, um mês especial.
Ansiedade, empolgação e outros temperos de ariano.
E no fim, o fim do dia.
Esperando que tudo seja novo, na nova idade.
Mas somente o suficiente para não se perder,
De quem se é, onde está!
Do que já passou e do que quer.
Essência!
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Lição
A praça cheia de crianças num sábado.
Um bairro carente.
Um homem que fez de tudo para poder oferecer seus poucos e pequenos ovinhos de chocolate.
Crianças felizes à espera do doce.
O carro da reportagem chega e deixa o homem simples em lágrimas.
Alegria, festa e chocolate.
Abraços, agradecimentos e uma derrubada na grama.
Ao se despedir daqueles que foram reportar a festinha,
De forma humilde e inocente,
O homem festeiro tira do bolso cinco reais,
E oferece a eles, para que tomem um refresco ou comam algo.
“Trate de guardar esse dinheiro! Você está louco?
Viemos aqui fazer nosso trabalho. Já somos pagos para isso!”,
Dizem, de forma muito humorada, o fotógrafo e a repórter.
Por dentro, surpresos, impressionados. Tocados.
Com tamanha humildade e inocência.
Daquele homem, que nada tem de posses,
Mas que trabalha sempre para alimentar sonhos.
Deles, delas, seus próprios e de quem sonhar.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Visão
A frase, dita ao acaso, soaria como um simples favor de um amigo atencioso.
Mas não foi. Ela veio de um cara desconhecido, que estava a reparar a garota, deitada no colchão.
Mais tarde, aquele amigo do namorado da prima, que havia marcado o feriadão com a galera na chácara, se revelaria em um beijo gostoso, na rede, embaixo do pé de jaca.
A preocupação em pedir que se tire o óculos poderia ter sido um detalhe, ao acaso.
Mas não foi. Acabou sendo o tudo. O diferencial.
Pois essa observação só poderia vir de uma única pessoa: ela mesma, a dona dos óculos.
Mas veio dele, que nem lentes usava.
O feriadão com a turma na chácara acabou.
O desconhecido da festa, voltou com a garota,
Que agora conheceu seu nome,
E saberá como chamá-lo,
Sempre que precisar alertar,
Para que tire os óculos.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Patrimônio
A canção oficial. Brasileiríssima!
Por ossos da profissão, costumo acompanhar muitos eventos em que o Hino Nacional é executado. Muitos mesmo.
Mas, apesar da rotina, apesar da formalidade, confesso que me emociono toda a vez em que essa musiquinha é tocada. Me emociono mesmo. Em 98% das execuções (Nos outros 2% desvio o pensamento, para não "pagar mico").
Sinto como algo que podemos chamar de nosso, com toda propriedade, quase como nosso nome, extremamente familiar e da casa. A letra, o clamor. Nosso patrimônio.
Essa parte é tocante, sobretudo com a junção dos acordes:
Mas se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
É, ele também é ariano. Foi executado a primeira vez no dia 13 de abril de 1831, em desacato ao imperador Dom Pedro I, que havia renunciado o trono. Ele acabava de embarcar para Portugal.
A música foi composta bem antes, em 1822, por Francisco Manuel da Silva, em razão da independência brasileira.
A letra viria somente em 1909, após diversas versões e utilidades (algumas letras insultavam os portugueses, quando eles já não estavam mais em alta, no gosto brasileiro). A letra foi concebida pelo poeta e jornalista Joaquim Osório Duque Estrada, em 1909, que venceu o concurso para decidir qual texto se encaixaria melhor à música. Juntas, letra e música, tornaram-se hino nacional brasileiro em 1922. Oficializado pelo então presidente Epitácio Pessoa.
O curioso, nesses mandos e desmandos, alterações de letra do hino, é que a canção possuía uma letra também para a introdução, que hoje conhecemos somente em forma instrumental. A letra foi composta por Américo Moura, presidente da província do Rio de Janeiro entre 1879 e 1880.
É essa aqui:
Espera o Brasil
Que todos cumprais
Com o vosso dever.
Eia avante, brasileiros,
Sempre avante!
Gravai com buril
Nos pátrios anais
Do vosso poder.
Eia avante, brasileiros,
Sempre avante!
Servi o Brasil
Sem esmorecer,
Com ânimo audaz
Cumpri o dever,
Na guerra e na paz,
À sombra da lei,
À brisa gentil
O lábaro erguei
Do belo Brasil.
Eia sus, oh sus.
Curiosíssimo!
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Sabedoria

Resposta espirituosa ao jornalista da senhora Maria D’antuono, de 98 anos de uma idade que, segundo ela, é de perder as contas. Ela foi encontrada presa em escombros dentro de sua casa, em Tempera, cidade italiana próxima a L’áquila, onde 260 era o número de mortos e 28 mil pessoas sem teto, após um terremoto.
A vida é isso – não levar a sério demais, pois sempre tem uma saída. Sempre.
terça-feira, 7 de abril de 2009
Profissão
Hoje é lembrado o dia do jornalismo. Uma profissão que já foi considerada até o quarto poder. A busca pela verdade, pelo objetivo, pelo imparcial. Sempre!
Aqui, um poema de Elza Lemke Batalha, poetisa que já citei antes e agora trago para mostrar um significado muito interessante para a arte de escrever.
Antes de ser formado jornalista, antes de ser o buscador do texto pronto, reto e direto, tudo começa com aqueles livros que se tornam especiais, sejam de contos, poesias, etc. A leitura e depois a prática da redação. Escrita. “Gosto de ler e escrever, por isso quero ser jornalista”, era minha resposta, ainda no primário, à velhíssima pergunta sobre o que queria ser quando crescer.
Eis aqui uma bela alusão feita à arte de escrever, pois todos, de alguma forma, têm algo para contar, mas nem todos se aventuram a fazê-lo de forma escrita e pública.
Em homenagem à profissão que é, sobretudo, a de contar histórias:
Cantinho de confidências
Elza Lemke Batalha
Minha história talvez seja bastante singular. Os anos mais produtivos de minha vida (intelectualmente falando), começaram na década de 70, quando a minha poesia eclodiu como um vulcão.
É por isso que considero meus versos, meus amores,
Eles são como meus filhos, gerados em minhas entranhas e surpreendentemente trazidos à luz, pelo meu cérebro.
Uns são tão feinhos! Mas eu, como mãe coruja, vou dizendo: “O que enfeita é esse narizinho!”
Outros são lindos! Meu orgulho!
Alguns são batalhadores.
Guerreiros natos. E quando recebem galardões, meu ego fica assanhado.
Consegui juntá-los, reuni-los no berçário de um livro.
E seguindo o ritmo da natureza tenho que expô-los à vida e soltá-los na correnteza.
Afinal, a mãe passarinho também expulsa seus filhos, quando já grandinhos, do ninho.
Na sua linguagem de pássaro, talvez esteja para eles dizendo: “Vai te virar, comida tens que procurar.”
A sorte está lançada. Até agora os resguardei.
Felicidade para vocês, meus filhinhos!
Espero que encontrem cada coração, um novo ninho.
Este texto serviu de espécie de prefácio para o primeiro livro poesias de Elza Lemke Batalha (Uma lágrima na sala de visitas).
sábado, 4 de abril de 2009
Herói
Esse cara na foto completa 50 anos hoje.sexta-feira, 3 de abril de 2009
Coletiva

O governador visita Santos.É o 53º Congresso Estadual dos Municípios.
Dia de coletiva, na certa.
Uma guerra!
É onde o mais experiente ou o iniciante estagiário jornalista se torna um animal.
Voraz, na busca de uma resposta (ao menos o direito de uma pergunta).
O ângulo perfeito, a sonora clara.
Um espaço, ao menos.
"Governadoooor", berra a menina da TV.
"Governador!", também grita outro profissional.
"Calma gente, olha a minha cabeça aqui!!", berra um entrevistador, na cara do José Serra e atrapalha a gravação dos demais.
"Bem, o projeto prevê um túnel ou uma ponte para ligar Santos a Guarujá e tem previ...", inicia o entrevistado, ainda paciente, mas não simpático.
"Geeente, olha o meu cabo aqui!", alerta o repórter cinematográfico, no meio, interrompendo a sonora do governador, que não faz nada para contribuir com os questionadores.
É a lei da sobrevivência.
É gente grudada em gente, literalmente, amasso profissional, sem preconceito e sem nojo do suor ou calor do(a) colega.
Mão no ombro do da frente. Câmera esbarra e bate na cabeça.
"Repete a pergunta que ele não gravou."
"Silêncio que a minha sonora é para rádio."
"Eu vou cutucar neguinho aqui."
Nem um milímetro de espaço a mais. A tensão é coletiva.
Seja para o da mídia escrita, que tem que transcrever o que está no gravador.
Seja para o da TV, que terá de escolher a melhor cena em meio ao empurra-empurra.
No fim, ele sai, sem nem anunciar e as perguntas não cessam.
"Governador....
...ele foi embora."
Fotos: Richard Aldrin
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Dúvida
Certeira, bem na cabeça. Mortal.
Foi vítima de uma brincadeira de garotos de rua, à toa.
Morreu e, no mesmo dia do infeliz acidente, foi imediatamente sepultado.
Há quem diga que o corpo no caixão ainda estava quente.
Mas em cidade pacata, povo pacato, somente deram conta de enterrá-lo.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Favorito
Abaixo, um som muito relax - "Abril" com Leila Pinheiro. Conheço noutras vozes, mas essa aqui também é legal, pra frente!
sábado, 28 de março de 2009
domingo, 22 de março de 2009
Intimista
É muito artístico e o público pode não comprar a ideia.É assim que os possíveis distribuidores do filme "The imaginarium of Doctor Parnassus", de Terry Gilliam ("Os 12 macacos" e "Irmãos Grimm") encaram o longa, filmado em 2008, último filmado por Heath Ledger, que morreu em janeiro do mesmo ano. O filme conta a história de um mágico viajante, que oferece aos clientes muito mais do que esperam.
Os homens que buscam grandes vendagens temem por não lucrarem tanto com um possível lançamento, em se tratando de ter um filme artístico com Ledger, reconhecido este ano com Oscar de melhor ator coadjuvante por "Batman - O cavaleiro das trevas", além de já ter marcado também em "O Segredo de Brokeback Mountain" (indicado a melhor ator, em 2006).
Ledger morreu sem finalizar as gravações, que tiveram de ser continuadas por Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law - o que, segundo os envolvidos, não foi um problema, pois o personagem vive diferentes fases, que podem ser interpretadas por diferentes atores.
E é nesse medo, que o projeto não tem data para lançamento.
Não seria subestimar demais o público, ao julgar de forma prévia a aceitação da obra? O filme de arte costuma ser considerado por muitos como sinônimo para algo um pouco acima do compreensível, do "digerível", ou complexo - chamado pelos críticos de intimista! Mas não pode ser encarado como sinônimo para algo ruim, de baixa qualidade e que não mereça ser comercializado.
É uma decepção se deparar com esse pensamento de empresas acostumadas a lançar mega filmes barulhentos, com excesso de efeitos artificiais...
É uma decepção ver esse medo sobre o que os admiradores de Ledger pensarão de um trabalho um pouco diferente de filmagens "teens" feitas anteriores. O que seria de grandes títulos que dificilmente chegam às salas de shoppings e cinemas populares, se pensassem sempre em quantos milhões irão lucrar?
quinta-feira, 19 de março de 2009
Cotidiano
Nosso dia-a-dia é cheio de contatos que adquirimos com o passar da vida. Mario Prata, escritor contemporâneo e direto, de bons títulos, e sem rodeios, jornalista e também roteirista de algumas novelas, resolveu juntar em um livro lembranças e histórias vividas com seus contatos de agenda telefônica.
Em "Minhas Mulheres e Meus Homens", Prata traz uma série de contos deliciosos, que segundo ele diz, viveu com diversos conhecidos (muitos deles famosos). É leitura válida com certeza. São fatos muitas vezes rotineiros, que contados de forma atraente e dinâmica, arrancam risadas, impressionam e até fazem refletir. É o que costumo trazer aqui nessa página, com publicação de ocorridos que uma vez descritos, parecem contos inventados e histórias impensáveis. É quando alguns visitantes leem e se perguntam se são mesmo histórias reais. E são.
Entre os nomes da lista de Prata estão Chico Buarque, Hebe, Maitê Proença, Sônia Braga, Arnaldo Jabor, Marília Gabriela ou ainda Gabriel García Márquez (!!) e Ruth Cardoso. Apenas alguns dos nomes dessa extensa lista. Entre eles, um verbete que destaco e transcrevo aqui, envolvendo o compositor Antonio Pecci Filho, o Toquinho. Ele aparece muito engraçado, em uma situação comum de elevador, com um desfecho inusitado. Assim, Prata conta:
"Estamos nós dois no elevador do prédio dele, nos Jardins. Nós dois e um garotinho que acaba de entrar. Uns cinco anos. Mal alcançava o número seis. Apertou. Apertamos o cinco.
Ele mostrou a língua para o garoto.
O garoto mostrou a língua para ele.
Ele mostrou a língua para o garoto.
O garoto mostrou a língua para ele.
Estamos chegando no quinto. A última língua foi do garoto. Mas o Toquinho não admite perder. Nada e nunca. Na hora que saímos e a porta está quase fechada, na frestinha que sobrou, ele mostra a língua, vitorioso, e bate a porta.
Mas lá dentro, o garoto ficou na ponta do pé e, pela janelinha, numa fração de segundo, mostrou a língua.
O Toquinho fica puto e sai correndo pela escada a toda. Chega no sexto andar junto com o elevador que se abre, mostra a língua para o garoto e volta correndo.
-Ganhei, diz, ofegante e suado."
domingo, 15 de março de 2009
Papelzinho
“A Voz da Igualdade”, pregada no filme “Milk”, chega às salas do Brasil um tanto quanto enfraquecida ou sem apoio. É que a causa do ativista gay Harvey Milk, belamente retratada a partir do roteiro original de Dustin Lance Black (premiado com o Oscar), não teve apoio do dublador brasileiro de Sean Penn, Marco Ribeiro, que tirou o corpo e sua voz do projeto.De acordo com nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ninguém teria sido excomungado no caso do aborto dos gêmeos da pequena garota. O ato de repúdio, anunciado pelo arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, no início do mês, impossibilitou de participarem dos atos da igreja (receber hóstia, casar e etc), tanto a mãe da vítima, quanto a equipe médica, pelo o aborto consentido e realizado. Já o padrasto que estuprou a menina, esse não recebeu o tal do castigo.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Limpeza

Dentro de seu carro, entre engrenagens do lava rápido,
Zunidos, barulhos e ruídos.
Entre um jato de sabão, outro de detergente e água, automáticos.
Ele grita alto. Louco.
Trancado no veículo, sozinho.
Com muito a resolver.
O grito é um só e estridente (mas o suficiente para não ser ouvido),
Em meio ao barulho daquelas escovas gigantes da máquina de limpeza, lá fora.
O bastante para descarregar, ali dentro, e de forma eficaz, o que sente.
Ao ver seu companheiro na pior, entorpecido.
Ao ter de fazer uma escolha difícil,
Ao descobrir a sorte cruel à qual sua amiga está fadada.
E assim, ele possuía o carro mais limpo da redondeza.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Privação
Mostra-se, depois de uns copos, na mesa,
Diferente. Ou talvez nem tanto.
Quem sabe aí sim, é que está sóbria do que é.
"Ele não deixa eu ver meus amigos do samba.
Meus amigos são todos do samba!
Nossas melhores festas eram no samba...",
Desabafa ela, aos ouvidos de uma outra mulher,
Desconhecida, mas que ali também está.
"Eles nem vão mais em casa,
Eu não posso mais ligar para eles.
Tudo por causa dele."
Ele é aquele que a deu tudo,
Ajudou a chegar onde está hoje.
Mas ao salvá-la, tirou.
Sobretudo seu mundo do samba.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Falsidade
A paz é fruto da justiça, assim defende a Campanha da Fraternidade 2009, que tem início no período da quaresma, logo após o carnaval, na quarta-feira de cinzas.Sem justiça não há paz, pregam as igrejas católicas.
Sejam criadas as condições necessárias para que todos vivamos em segurança, na paz e na justiça que desejais, diz a oração da campanha.
Renovar a consciência da responsabilidade de todos, na evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa (justiça e inclusão digital) e solidária, diz um dos artigos sobre objetivos da campanha.
Na Paraíba, um padre, que também é deputado federal, é suspenso das funções de sacerdócio,
pois é contra a discriminação de homossexuais e defende o uso de preservativos. Após declarações sobre sua posição, que saíram em órgãos de imprensa, o arcebispo do estado não gostou da entrevista e suspendeu as funções do padre, que está proibido de celebrar missa, batizados e casamentos.“Lamentavelmente, declarações sumárias e ambíguas a respeito do uso de preservativos, união de homossexuais são posições diametralmente contrárias à orientação oficial do Vaticano. Isso é intolerável”, diz a autoridade.

Ambíguas são essas campanhas, que deixam dúvidas no quesito fraternidade. Não é a primeira vez que falo sobre isso por aqui. E tampouco é a primeira vez que a instituição santa mundial divulga campanhas que falam bonito, abordam justiça, mas passam longe da prática, ficando tudo em palavras, que sequer saem dos parágrafos redigidos em nome da santidade.
Justiça falsa, um fracasso.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Vencer
“It’s not just about winning.”Frase do personagem Harvey Milk, interpretado por Sean Penn, em “Milk, a voz da igualdade”, quando questionado sobre a possibilidade dele não ganhar a corrida em um cargo público nos Estados Unidos, por conta de sua opção sexual. Para ele, bastou defender sua causa e levá-la a ser conhecida. E assim foi feito.
Filme muito bom e que saiu com Oscar de melhor ator e melhor roteiro original. Prêmios merecidos.
“Não se trata apenas de ganhar”, também disse, ao ser entrevistado, um presidente de um bloco carnavalesco, que participou como estreante nos desfiles de carnaval da cidade do litoral paulista, Praia Grande (O Carnaval da Família de Praia Grande 2009). E fez bonito, muito bonito. Sem ser demagogo, mostrou a que veio: exaltar a cultura do carnaval de bairro, de galpão, de projetos entre crianças, jovens e terceira idade.
Rogério Mazio, o presidente orgulhoso do bloco Casa do Mestiço, levou para a avenida sua agremiação com simplicidade que impressionou a todos que viram seu desfile. Qualidade técnica, grandiosidade e enredo falando sobre miscigenação, muito bem amarrado e defendido. Como um moleque que sabe o talento que tem, chegou, malandro, e conquistou a todos.
É daqueles que, quando se presencia, se diz, sem exagero: “Que orgulho em ter personagens como esses neste mundo.” Foto: Richard Aldrin
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Carnaval
"Amor de Carnaval", com Elis Regina e Jair Rodrigues, em épocas de "2 na Bossa"
Alfabetizado
É! Saiu o diploma!Agora é assim, certificado, comprovado, a certeza de ser alfabetizado.
Enfim, jornalista.
Claro que em tempos diferentes (sobretudo daqueles pregados em aulas de “História do Jornalismo”), mas jornalista.
Não tão “brigador” por certas causas, que em dias de hoje já não há.

Mais por dinheiro, por anseios de alguma estabilidade, quem sabe, na vida,
Do que por paixão pela verdade absoluta, pelo ser objetivo, apolítico, isentíssimo entre outras teorias,
Que como tais, são, quase sempre, teorias.
Enquanto isso, a classe briga pela não decisão da parte do Superior Tribunal Federal, que pode decretar a não necessidade de se ter diploma para ser jornalista.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Clássico irado
“E se você é a visita, deve se comportar ainda mais, pois está na casa dos outros!”
A fórmula era simples!
Visitantes corintianos no Estádio do Morumbi não souberam controlar-se. Brigas, ameaças e bombas de efeito moral, da Polícia, que só causou mais confusão.
Diretoria do Corinthians afirma que foi a bomba que quebrou o clima de calmaria existente durante toda a partida.
Mas, do lado de fora, era possível ver um paredão de homens que defendiam seu timão, anunciava em melodia: “A violência voltou!”.
Não se justifica, mas será que ninguém esperava uma reação ao forte esquema montado pelo São Paulo para receber os oponentes? Será que o corte de ingressos (somente 10% foram destinados aos visitantes) é mesmo a solução para o fim da violência dentro de campo? E fora das quatro linhas, a pancadaria pode rolar?
E há quem defenda ainda o corte no percentual de ingressos oferecidos, nesses casos, para 5%.
Será que resolve?
Folia
Carnaval...Folia, samba e muita, muita camisinha!
Há, ainda, quem defenda a teoria de que grande parte dos nascimentos no Brasil se dá nos meses de novembro e dezembro. Isso porque esses filhos seriam frutos de irresponsabilidades praticadas em festas e folias de carnaval.

O Governo Federal atingiu recorde histórico de distribuição de preservativos masculinos em 2008. O número passou de 406 milhões de protetores emborrachados no Brasil. Em 2007 foram 122 milhões. O maior número até então era de 257 milhões, em 2003. Em 2009 a previsão é de mais 1,2 bilhão de camisinhas.
Estima-se que 255 mil brasileiros estejam infectados pelo vírus da Aids e ainda não sabem disso. Acredita-se que a testagem é feita de forma tardia em 40% dos casos, quando o paciente já está muito debilitado.
O que falta?
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Alegria
Para rir um pouco, na voz de Elis e na letra de Baden Powell e Paulo César Pinheiro.
Que batucada!!!
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Uma lágrima na sala de visita
Elza Lemke Batalha é poetisa da minha cidade, Praia Grande. Muitos aqui já a viram em um de seus projetos, que visitava salas de aula, onde recitava poesias, ao som do violão de seu marido, Jares. Enquanto uma moda de viola era executada, aquela voz doce e por vezes até frágil, ecoava e declamava seus textos.A conheci quando eu trabalhava com xerox e semanalmente aparecia aquela figura linda, do tipo que todos queriam ter como avó, para fazer cópias daqueles papéis, que depois eu descobriria tratar-se de suas poesias. Estava querendo montar um livro. Um sonho. E ele veio, em novembro de 2003. O nome dado foi “Uma lágrima na sala de visita”. Veio com muito esforço, com apoio de pessoas que a admiram.
Dona Elza (como sempre a chamo), começou a escrever suas poesias na maturidade, aos 70 anos. Passou a escrever quando conheceu seu grande amor (o primeiro marido a deixou viúva cedo). Em 2002, realizou outro sonho, casou-se na igreja com Seu Jares, seu “muso” inspirador. Estava linda, em plena beleza de seus 81 anos, os olhos ainda em vivíssimos azuis e um vestido lilás.
Hoje, por conta da idade e do sofrimento de sua vida (e não foram poucos), ela costuma se esquecer de muitos detalhes, mas meu nome ela sempre lembra. E a poesia, essa segue sempre rica e pulsante nela. Sinto saudades de Dona Elza e sei que ando lhe devendo uma visita (a última vez que fui à sua casa, em época de aniversário, ela não estava e deixei um vaso de flores à porta).
Segue aqui o poema que é título de seu livro e conta uma história cheia de beleza infantil, escrito já na maturidade.
Uma lágrima na sala de visita
Elza Lemke Batalha
Quando eu era menina,
que tempo saudoso!
Que amor gostoso!
havia em meu lar.
E eu feliz a desfrutar
aquele pequeno Paraíso,
tendo em meus lábios um sorriso.
Mas às vezes surgia a tempestade,
e o céu escurecia,
quando de meu pai, severas advertências
ouvia,
por alguma traquinagem de criança
inocente.
Por alguma trampolinagem de infante
Inconseqüente.
Nem tudo é doce como mel.
A vida às vezes é amarga como fel.
E quando uma lágrima
nas minhas faces rolava,
meu pai assim à minha mãe falava:
“Esta menina tem a lágrima na sala de visita.”
Elas eram pequetitas
como as contas de um rosário,
descendo pela face como gotas
cristalinas,
apontando já na minha infância
a sina do Calvário.
Então meu pai amado,
tendo sua zanga acalmada,
colocava-me no colo e me aconchegava.
Enfim minha alegria retornava.
“Não chores chores mais filhinha, meu tesouro.
Teu pai te ama de verdade,
e se às vezes demonstra severidade,
é para te educar,
e para a vida te preparar.
Vamos, dê-me agora um beijinho,
para selar nossa amizade.”
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Loucura
Pequeno mesmo,
Ouço meu pai falar sobre algo simples,
Toda vez que brigava com a minha mãe.
O que ele dizia, naquela idade, me deixava impressionado.
E até, por vezes, com medo.
Soava como uma profecia, algo assim.
“Nossa cabeça, nossa mente sadia, é como um filtro,
Que tem sempre uma vela dentro dele a gotejar.
Paciente, sábia e na medida.
Quando enchemos demais o filtro de água,
A vela não dá conta de filtrar,
E o filtro todo transborda.
Assim é com a cabeça.
Se não controlamos nossos pensamentos,
E passamos a encher a cabeça dos piores sentimentos negativos,
Dados por terceiros,
Ela se enche, transborda e perde o controle."
E assim foi.
Minha mãe não soube poupar o filtro que tinha.
Encheu-o até não poder mais reverter a situação.
Criou toda uma história sobre ciúmes. Perdeu a cabeça.
Perdeu o casamento, seus filhos e a si mesma.
No ápice do descontrole de sua vida, perdeu-a.
Ganhou, ao fim, a paz para a mente intranquila.
Para sempre.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Café para mestres
Esses dias assisti ao documentário Café dos Maestros (Cafe de los maestros), lançado em dezembro do ano passado e ainda em cartaz em 2009 em algumas salas. A curiosidade veio por meio de um nome impresso no panfleto de anúncio do longa – Gustavo Santaolalla. Produtor, Santaolalla vem fazendo bonito no que diz respeito a trilha-sonora de grandes filmes. Em 2005 levou o Oscar pela melhor trilha, em O Segredo de Brokeback Mountain (de Ang Lee) e em 2006 repetiu o feito em Babel (de Alejandro González). Simplesmente adoro o trabalho dele.
Pode parecer engraçado, mas é real. Para mim, que não conheço quase nada sobre tango, confiei no projeto só por ler Santaolalla na ficha técnica. E valeu a pena.
No documentário, o músico-produtor faz o papel dele mesmo: um moleque
amante da música, sobretudo a argentina, que recebe com grande devoção, empolgação e respeito, nomes importantíssimos da era de ouro do tango daquele País, mais precisamente em Buenos Aires, dos anos 40 em diante. Moleque sim, mas somente por causa da idade do produtor, perto dos 80 anos da cantora Lágrima Rios, por exemplo, uma entre os 17 artistas homenageados.
O documentário emociona. Sobretudo pelo som rico, forte e
marcado do tango. Seja conhecedor ou não desse estilo musical, o título é válido. É lindo, é tocante ver o choro extremamente agudo dos violinos e violas, sentir as notas graves do piano junto com o contrabaixo, disciplinados que são. A presença do tradicional bandaneón, que muitos associam direto a uma sanfona, é essencial: dá a lerdeza a tempo que a música precisa. Dá vontade de aplaudir, em plena poltrona do cinema, ao final de cada peça apresentada. E a dança tango, principal referência tida por grande parte das pessoas, também aparece. Casais de todas as idades são registrados dançando em diversos cenários da capital argentina, bem como imagens antigas e boêmias dos anos 40, 50 e 60.
Ver a emoção do homens velhos, de cabeças brancas, que sentem-se felizes em estarem se encontrando novamente, é uma beleza à parte. Nostálgica e saudosa.
O filme todo baseia-se em uma série de ensaios, testes, audições, em um estúdio, em preparação a um grande evento que está por vir: um concerto de tango no Teatro Colón de Buenos Aires, organizado, entre outros, por Santaolalla. Para muitos dos grandes nomes, que faziam muito bem suas músicas enquanto jovens e de bar em bar, pisar naquele palco em tempos modernos, foi uma oportunidade a eles nunca dada antes.
O filme é simples, não há narração e só peca por não apresentar de pronto, os nomes das personagens reais do tango, tão logo aparecem (eles são identificados apenas no fim do filme [uma falta importante, sobretudo àqueles que, como eu, não os conhece]). Uma câmera registra dezenas de gestos, emoções e principalmente música, muita música da Argentina. Também no final o documento lembra em especial, três dos 17 maestros (mestres em espanhol), que foram homenageados e não viveram para se verem na obra em que participaram com tanta propriedade, agora finalizada e apresentada nas salas de cinema, a partir do fim do ano passado. Mas fiquei feliz, pelo menos por saber que, em vida, tiveram oportunidade de serem lembrados e homenageados a tempo. De forma grandiosamente merecida.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Álibis
Não é.
Com seus homens,
Aprendeu lições que nem a mãe, após anos de casamento, aprendeu.
Começou com os mais novinhos,
Descobriu os experientes.
Aos 21 anos a filha teme,
Entre outras coisas, em atender o pedido da mãe,
Que quer acompanhá-la ao ginecologista.
“Para apoiar minha filhinha que nada conhece dessas coisas”.
Não pode conversar sobre certos assuntos. “São impróprios”.
Mamãe morreria se encontrasse na gaveta que vasculha, em dias de faxina,
Uma camisinha, uma peça íntima mais ousada,
Algum apetrecho.
Enquanto isso, a menina estica ao máximo o dia para a consulta.
E vive sua vida...
Usa seu amigo de álibi,
E usa a confiança que a mãe tem nele,
Para, sem ele, sair e experimentar por si só.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Energia
Um poema doce (um fragmento dele)...será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
[...]
Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Exclusão
Informou-se sobre as disponibilidades de vaga,
Animou-se, mostrando interesse.
“A ficha é essa aqui”, dizia a atendente, também na expectativa.
A interessada olhou,
Olhou. O papel e a atendente...
“Não sei escrever”, respondeu em sua maior honestidade.
A que atendia, nada pôde fazer.
Resgatou para si a ficha, ainda em branco.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Velho
Fora dela, típico na época, viveu de amantes em todo canto que trabalhava.
Bebeu e gastou.
Tratou a mulher, as filhas como se tratassem de propriedades suas.
Privando-as, desmerecendo-as, controlando-as. Não amando.
Deixou de participar de muitos momentos importantes.
Em outros, o fez de forma indesejável, com desdém e de mau gosto.
Melhor que não tivesse ido.
Certa vez, em momento mais ameno da vida,
Mais por força da dependência que a idade vai trazendo,
E por conta da independência daqueles que não precisam mais de suas asas,
Menos do que por vontade,
Ajustou um terno dado pela filha,
Seria usado no casamento de uma das caçulas, ainda naquele mês.
Porém, a destinação da vestimenta foi outra.
O deixou mais digno, em meio ao aroma floral
Que o envolveu no caminho da cova, seu destino mortal,
Sete dias antes do matrimônio ao qual não participaria.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Fatal
De repente, o carro invadiu a pista contrária e bateu em dois automóveis. O motorista de um Peugeot morre. Uma criança de 2 anos e um bebê de sete meses, em um Gol, também morreram. Outros, que num total somaram mais de dez pessoas, se feriram.
Cinco presos do CDP saíram pouco feridos ou ilesos.
Fatalidade.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Vozes polêmicas

Em meio aos bastidores e nos próprios palcos onde ocorriam os festivais de música popular brasileira, eram comuns serem vistas briguinhas, arranca-rabos e desentendimentos entre artistas. Com Maysa não foi diferente. Imagine então envolvendo Elis Regina, que também não tinha as tais papas na língua.
O fato ocorreu após a final nacional do I Festival Internacional da Canção (FIC/TV RIO), em outubro de 1966, tendo como vencedora “Saveiros”, de Dori Caymmi e Nelson Motta, cantado melancólica e belamente na voz de Nana Caymmi.
Enquanto os Caymmi comemoravam em casa, houve uma festa em um lugar chamado Boate 706. Lá estavam, entre compositores e artistas, Maysa (que teve a canção por ela interpretada, “Dia das rosas”, eleita em terceiro lugar, composta por Luís Bonfá e Maria Helena Toledo). Naquela noite, Maysa bebeu todas e começou a provocar Elis, que estava na mesma mesa:
-Sua gauchinha de merda, você não canta nada!
Elis, paciente, para não comprar briga, respondeu:
-Não me provoca não!
Maysa não parou: pegou uma garrafa e arremessou-a contra Elis, quando Roberto Menescal conseguiu pegar a garrafa antes de chegar a Elis. Se acertasse, Maysa seria responsável por uma grande marca no rosto da pimentinha. A festa não parou por isso, muito menos a rixa das duas.

Antes, no festival, após proclamada campeã, Nana subiu ao palco para cantar novamente “Saveiros”, e foi muito vaiada encobrindo inclusive a orquestra (fato comum nos festivais).
Maysa, que durante todos os ensaios hostilizara Nana, levantou-se em meio ao turbilhão e esqueceu a rivalidade com a cantora e soltou ao público “vaiante” um “Agora é hora de aplausos. Vamos!”. E depois lá estavam as duas, no pódio.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Arrastão
Deu em toda a TV, após aparecer nas ruas.
E as irmãs de Minas Gerais viram em casa.
Ligaram para as parentes que estão com a mãe, passando férias na cidade litorânea paulista,
De onde vieram as notícias e previsões de mais dias de violência numa praia grande.
Como notícia ruim corre, e logo!
Tranqüilizando as informantes preocupadas no outro estado,
Quem está na praia assegura que os fatos não foram consigo e não caracterizam nada de tão grave, constante e ameaçador.
Na TV mineira os fogos paulistas não apareceram.
O coro de 200 vozes de natal, em sacada do Palácio das Artes, na mesma cidade litorânea, nem sequer foi pautado,
Muito menos rendeu um flash, não foi merecedor de ser veiculado lá.
Mas o arrastão, provocado por pessoas que vieram de outras cidades e até de outros estados, dispostas a barbarizar e quebrar tudo em município que não é seu, esse apareceu, com grande destaque.
Notícia ruim corre, e logo.
E isso, por incrível que pareça, ainda impressiona.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Queimar depois de ler
A presença de artistas conhecidos e premiados como Tilda Swinton, George Clooney, Frances McDormand e Brad Pitt, pode se considerada apenas notável diante do quesito interessante, da trama em si, que acaba por prender o expectador. Ela apresenta uma situação banal, cotidiana e que pode-se chamar de “seria trágico se não fosse cômico”.
Um dos destaques do filme, John Malkovich, é o analista que acaba de se demitir, após ser submetido a uma mudança de cargo na CIA. Decepcionado, ele decide escrever memórias de sua vida, compilando algumas informações reveladoras do tempo de serviço. Por um mero acaso, essas informações vão parar nas mãos de dois funcionários caricatos de uma academia esportiva, que sem saberem do que se trata, passam a exigir recompensa pelo material que têm em mãos.
A história, que começa complicada demais para ser uma comédia e sem nexo algum para entrar em uma categoria mais séria, aos poucos, com paciência do expectador, ganha sim, tons muito divertidos. Sobretudo porque aborda temas reais. A mulher que precisa de dinheiro para inúmeras cirurgias plásticas de beleza, que poderiam ser substituídas por exercícios físicos; a amante que cobra que do parceiro o rompimento do relacionamento estável (com uma esposa que ele mal sabe que também o trai); pessoas que passaram da meia-idade e procuram sexo fácil com desconhecidos, a partir de bate-papos na internet; e, principalmente, aqueles que querem se dar bem às custas dos outros.
Nesse último fator é que o filme se baseia solidamente. Em posse de um cd com informações pessoais às quais não têm a menor idéia do que se tratar, os funcionários da academia passam a chantagear seu dono. Se dão mal. E até mortes inesperadas e intrigantes ocorrem. Não propriamente por conta do suposto arquivo confidencial, mas sim, pela falta de tato, ao envolver órgãos e pessoas com as quais não imaginam o risco que correm. O final, revelador, arranca boas risadas de quem assiste, diante de tamanha sucessão de revelações tão trágicas quanto bizarras.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Arroz, feijão e novela
Pessoas que são capazes de qualquer crime em nome de poder, dinheiro e boa vida. Mulheres que sofrem nas mãos de seus maridos, que apanham, acreditam em falsas promessas e pedidos de perdão, e no fim, voltam à mesma situação de violência. Jovens que descobrem amores, condições sexuais e até gravidez inesperada. Histórias são cada vez mais contadas com todo o domínio da ficção e mais ligadas à realidade. Dentro das telas, as novelas encenam um cotidiano que já não é mais difícil de ser imaginado, sobretudo vivido. Diante das telas, as pessoas assistem e se vêem em tais situações e sentem-se representadas, compreendidas e, em alguns casos, tornam-se motivadas para tomar decisões. A novela brasileira, que aos poucos deixa de ser um passatempo unicamente feminino e sem qualquer função, além da mera diversão, fortifica-se cada vez mais como um elemento de representação do meio social. Ela divide espaço com o arroz e o feijão do jantar caseiro diário.
A empregada doméstica presencia todos os dias o conflito de sua patroa, que tem um filho envolvido no mundo das drogas. Na novela, essa mesma senhora vê uma história de empresários que perdem a vida, a família e os filhos por causa do consumo de entorpecentes. Em outro bairro, um rapaz em pleno ensino médio vive a difícil tarefa de escolher uma profissão para sua vida, ao mesmo tempo em que não sabe como contar aos pais sobre sua orientação homossexual. Na novela da TV, sua história parece repetir-se, naquele personagem gay, que engana a família, casando-se com uma prostituta, para mostrar que ele é o que a própria ficção chama de “ser machão”.
Longe das brigas de emissoras, que, com competência ou não para a teledramaturgia, duelam por audiência com suas novelas, não se pode negar que em algumas exceções, o telespectador ganha um meio de ter seu cotidiano, seus anseios, sofrimentos – sua vida ali revista e encenada. E os autores dos folhetins já sabem dessa necessidade de escrever com realismo, sentimento e humanismo. Não se pode ignorar também que para combater males, preconceitos, crimes, engajar para campanhas de saúde, da não violência, a melhor forma é tocando no tema.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Oficiais em espetáculo
A curiosidade se deu logo no anúncio: um grupo musical composto por oficiais da Polícia Militar e um coro formado somente por homens. O valor foi simbólico: um quilo de alimento não perecível, revertido para a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), de Praia Grande. Para um apreciador da música clássica, do canto coral, instrumental e orquestra, ou simples telespectador, foi um momento único de presenciar um grupo de tamanha qualidade e audácia musical, que nem o ruído dos aparelhos de ar condicionado da sala, pôde atrapalhar.
O primeiro número chamou atenção. A falta de maestro inquietava, mas a camerata iniciou a primeira peça, Rondeau from Abdelazer (H. Purcell 1659-1695). O pequeno grupo, composto por flauta, violinos e violas, teclado, violoncelo e contra-baixo, executam de forma imponente e levemente divertida, a canção. Destaque para o arranjo do cravo, característico nas obras de Purcell, que ali contracenou com o constante silenciar perspicaz dos violinos, que quando pareciam aos poucos emudecer, retornavam fortes e com tudo. Ao fim da peça é anunciado. “Era só um aquecimento.”
Entra o maestro Ismael Oliveira e a apresentação é iniciada, agora com Quarteto em Sol maior (W.A.Mozart 1756-1791). Solenidade e pompa tomam conta do local, que tornou-se um castelo imperial. Destaque para arranjo da dupla de violas. Na terceira peça, entra o coro, que canta uma composição pouco conhecida, mas de muita cor. Iniciada pelos baixos, a letra fala da “paz, que começa em mim”, seguida pelos tenores, que por sua vez são cobertos pelas terças dos companheiros de naipe. A partir daí, camerata e coro executam peças populares, com a mesma maestria das clássicas anteriores. Em Caçador de mim (Luiz Carlos Sá e Sérgio Magrão), Meu país (Ivan Lins e Vitor Martins) e em outras canções, os cantores solistas arrancaram suspiros, com interpretações românticas e cheias de personalidade.
Ao final, a peça Aleluia (Haendel 1685-1759), do famoso oratório O Messias, mostrou todo o poder de inovação do grupo. Peça clássica e perfeita quando executada por um coral completo, de homens e mulheres, esta versão não deixou nada a desejar. O cravo dava o tom e os contracantos soaram, como ecos, repetindo, respondendo, dialogando entre si, ora diante de subida infindável de tons. Após muitas emoções, em mais peças clássicas de Carlos Gomes, Pucini e outros populares, o público saiu com a curiosidade saciada, conhecendo um belo grupo de artistas da melhor categoria.
Fotos: Richard Aldrin
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Para você
Mas que em um você possa confiar.
:-]
terça-feira, 13 de maio de 2008
Teoria do tocar materno
Comodismo ou não, já é mais do que provado que o parto normal é, como o próprio nome diz, o mais seguro e saudável para mãe e filho, além de ser uma lição de sobrevivência da genitora para seu rebento. Como isso?
Ashley Montagu dedicou um livro inteiro para falar dos inúmeros benefícios que a relação mãe-bebê geram para uma boa vida adulta. Em Tocar: o significado humano da pele, o autor prova o quanto é importante manter o contato desde o nascimento.
Segundo o autor, o parto normal prepara o bebê para a difícil e estranha transição do mundo seguro da bolsa d’água para o mundo externo fora dela. Já nas contrações estão os primeiros desafios que o bebê enfrenta, sendo estimulado, como em uma super massagem em toda a pele, para não vir ao mundo tão frágil e sensível. Com “dos empurrões” o bebê tem força para dar sua primeira respirada, mesmo sem nunca ter feito isso antes.
Na amamentação, a teoria segue. Além de ser um elo único, que dever ser feito logo após o parto, o ato da mãe doar uma parte de si para sua criança, dá mais do que o leite: dá remédio, carinho, segurança e imunidade, que esse bebê levará para toda sua vida adulta. Com estudos, Flusser identificou diferenças muito fortes entre os adultos que amamentaram até mais de seis meses, quando crianças, e os que tiveram interrupção ainda na maternidade.
Ele conclui ainda, que a primeira mamada deve ser feita imediatamente após o nascimento, de parto normal. Isso já é incentivado em campanhas, isoladas ainda, no mundo e no Brasil, para que nas unidades de saúde seja adotada essa prática.
Problemas de respiração, de pele, dificuldade em alimentar, aprender a falar, se relacionar, insegurança, depressão, distúrbios no sistema imunológico e etc. Estas são apenas algumas das características observadas entre quem teve uma vida de estímulos, desde o nascimento e quem não teve tanto incentivo, já iniciando pelo nascimento por meio de cirurgia – o parto cesárea.Vale a pena refletir, ao optar por ter um filho de uma forma fria e sem a naturalidade que o evento exige ou por trazer o filho de forma natural, onde ele passará desde o início de sua vida, pelos desafios de estar no mundo.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
O desejo da expressão
Todos esperam ansiosos pela chegada daquele que é considerado o maior evento esportivo do mundo. As Olimpíadas, a serem realizadas em agosto, em Pequim, na China, reunirá competições, de muitas modalidades, de inúmeros atletas, vindos de diversas nações, que fazem do país-sede, por um determinado tempo, seu solo onde sagrará toda uma conquista.Os eventos pré-olímpicos correriam tradicionalmente bem, com o percurso da pira olímpica por muitos países, a anunciar a chegada dos jogos, se não fossem outras questões paralelas, menos esportivas e mais políticas, que dividem as atenções. Com isso, no lugar de crianças com sorvetes, sorridentes, com bandeirolas, a acenar aos atletas que conduzem a pira, o mundo vê da tv outra cena menos clássica, com homens azuis, de patins, capacetes, portando armas e coletes. Tudo para proteger a tocha. Será que esse esquema de segurança é porque ela pode explodir? Não, não é isso.
Eles protegem a chama que vem sendo apagada por militantes que promovem protestos contra violações dos direitos humanos e repressão, praticados contra o Tibete, uma província incorporada à República Popular da China, que atrai atenção de outros países que querem ter seu domínio. No direito à autonomia, independência e na busca pela valorização de seu povo, tibetanos e simpatizantes saem às ruas.
É como se um irmão mais novo reclamasse o tempo todo das peripécias provocadas por sua irmã mais velha, que se aproveita da experiência, da grandeza e da influência para dominar o menor. Em um determinado momento, esse irmãozinho Tibete vê na chegada da mãe em casa, a sua salvação: e parte a denunciar com todas as ferramentas e armas o que a irmã China sempre fez consigo. A mãe, que seria comparada à mídia, é aquela que, relativamente parcial, presencia todos os atos de protesto e que os passará ao papai, à titia e a todos os parentes (o mundo inteiro).
Alguns órgãos defendem a foram de expressão, outros defendem o cancelamento do revezamento da tocha. Já os militantes espalhados no mundo, divulgam que serão “mais cautelosos” nas próximas manifestações surpresas, pois não querem violência.
Protestar é válido, sobretudo quando não se teria condições, nem oportunidades para isso ser levado ao mundo. Porém, atrapalhar de forma violenta um evento mundial de esporte, que promove por si só a paz, a integração dos povos, a superação de limites, a cultura, a saúde, a luta contra a pobreza e a realização humana, não é louvável.
Que esse corajoso ato do irmão-mais-novo-Tibete persista, sobretudo quando a mãe não estiver mais em casa, pois terá de suportar e lutar contra a repressão que poderá sofrer, da irmã mais-velha-China, que, sem as lentes maternas do mundo, poderá castigá-lo por tê-la entregue.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Simples como voar

Esses dias passava na Tv um filme muito conhecido por muitos e que fez parte da infância e até mesmo do mundo adulto de muitas pessoas, em todo o mundo. Uma criança, que deve ter 6 anos no máximo, que brincava na garagem do prédio entrou na sala e de repente ficou paralisado junto à TV. “É Peter Pan?” ele perguntou. Eu respondi que sim e sem nem pensar, ele se sentou a meu lado no sofá e começou a falar que era um filme muito bom, onde um menino voava e ensinava outras crianças a voar. E a cada cena ele me perguntava coisas típicas de criança, que eu já havia me esquecido de perguntar a mim mesmo, por conta de minha idade que já não é mais a mesma daquele garotinho.
“É verdade que podemos voar, né?!” “A Terra do Nunca existe mesmo não é?” “Você sabe se Peter Pan mora aqui perto?”.....
Não sei se fiquei impressionado por causa de ele acreditar nessas coisas mágicas, em mundo em que muitas crianças são tão diferentes. Não sei se fiquei impressionado por ver que a essência de todas as crianças é a mesma, não importa a época que vivem. Não sei se fiquei impressionado pela inocência e verdade naquelas perguntas daquele garoto.
Às perguntas, dei respostas evasivas, pois preferi alimentar aquela história, afinal, não seria eu quem acabaria com a verdade daquele filme Peter Pan. “É possível voar sim, mas não sei o segredo ainda” “A Terra do Nunca existe, mas deve ser muito longe daqui, pois eu nunca consegui chegar lá” “Peter Pan mora em um lugar em que é difícil descobrir”.
Achei incrível como histórias atravessam gerações, embalam infâncias e continuam transmitindo boas coisas, assim como no filme, em que o segredo para voar é simplesmente pensar em coisas boas. Mesmo com meu olhar diferente e mais crítico às coisas e aos efeitos do filme, fotografia, trilha sonora, ainda me permiti emocionar em certas cenas, onde o que as crianças queriam se transformava em realidade, como a hora em que conseguem voar e a hora em que juntas chegam à terra dos sonhos de qualquer criança e adulto também (mesmo que seja em um baú guardado lá dentro, por conta de coisas mais reais e menos ilusórias do mundo cruel e também real). No filme, há o menino que não quer crescer, que não quer encarar as coisas más do mundo. Lá, as pessoas acreditam em histórias de conto de fadas, em que todos vivem felizes para sempre.
Ao fim, tive certeza mais uma vez de que ser criança é ter a audácia natural de poder acreditar em tudo o que vê e em tudo o que querem acreditar.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Igreja - Defesa de quase todas as vidas

Uffa...
Vamos refletir...sobre umas coisinhas...
Com o encerramento do carnaval, na quarta-feira de cinzas, inicia-se mais uma Campanha da Fraternidade que, no calendário religioso, antecede as comemorações da Páscoa. Durante esses 40 dias, conhecidos como quaresma, a campanha ajuda a reforçar conceitos sobre um determinado assunto, fazendo todos refletirem e mudarem atitudes negativas, para a celebração da ressurreição de Jesus.Este ano o tema é Fraternidade e Defesa da Vida.
Por mais que a Igreja Católica queira infundir em seus fiéis boas mensagens para valorização da vida do próximo, é evidente que cada vez mais a considerada grande mãe de todas as religiões faz alguns de seus filhos se distanciarem, pois eles são declaradamente rejeitados por ela.
Em tempos atuais, um público que gera discussões e polêmica no meio religioso é o homossexual, que recebe cada vez mais impedimentos pela igreja, por não ter o direito de viver o que é, com quem ama. Taxados a todo momento, esses homens e mulheres se vêem confusos, quando tentam manter sua religiosidade e fé, pois se vêm discriminados quando cruzam a porta da capela. Segundo o catolicismo, ser gay é ser errado, ser impuro e contradiz a lei da vida. Logo, se contrariam, não podem ter a vida valorizada, como reza a campanha deste ano.
A igreja costuma ser rigorosa também com pessoas que vivem juntas após se separarem de um casamento mal-sucedido. Também indignos, desquitados, divorciados, separados e amasiados não podem receber a comunhão. Muitos desses não realizaram divórcio por questões de burocracia, financeira ou qualquer outra razão. Todos sabem que seria perfeito se o casamento durasse para sempre, porém, nem sempre a história é tão perfeita assim, sendo a separação a única forma de se acabar de forma respeitável e sem maiores atritos, uma relação que não deu certo.
Esses e outros públicos buscam sempre o respeito, a valorização e o reconhecimento de pessoas humanas que são. Campanhas como essas têm temas muitos importantes, louváveis até. Mas, as pessoas excluídas esperam ações mais reais.

