quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Uma lágrima na sala de visita

Elza Lemke Batalha é poetisa da minha cidade, Praia Grande. Muitos aqui já a viram em um de seus projetos, que visitava salas de aula, onde recitava poesias, ao som do violão de seu marido, Jares. Enquanto uma moda de viola era executada, aquela voz doce e por vezes até frágil, ecoava e declamava seus textos.
A conheci quando eu trabalhava com xerox e semanalmente aparecia aquela figura linda, do tipo que todos queriam ter como avó, para fazer cópias daqueles papéis, que depois eu descobriria tratar-se de suas poesias. Estava querendo montar um livro. Um sonho. E ele veio, em novembro de 2003. O nome dado foi “Uma lágrima na sala de visita”. Veio com muito esforço, com apoio de pessoas que a admiram.
Dona Elza (como sempre a chamo), começou a escrever suas poesias na maturidade, aos 70 anos. Passou a escrever quando conheceu seu grande amor (o primeiro marido a deixou viúva cedo). Em 2002, realizou outro sonho, casou-se na igreja com Seu Jares, seu “muso” inspirador. Estava linda, em plena beleza de seus 81 anos, os olhos ainda em vivíssimos azuis e um vestido lilás.
Hoje, por conta da idade e do sofrimento de sua vida (e não foram poucos), ela costuma se esquecer de muitos detalhes, mas meu nome ela sempre lembra. E a poesia, essa segue sempre rica e pulsante nela. Sinto saudades de Dona Elza e sei que ando lhe devendo uma visita (a última vez que fui à sua casa, em época de aniversário, ela não estava e deixei um vaso de flores à porta).

Segue aqui o poema que é título de seu livro e conta uma história cheia de beleza infantil, escrito já na maturidade.

Uma lágrima na sala de visita
Elza Lemke Batalha

Quando eu era menina,
que tempo saudoso!
Que amor gostoso!
havia em meu lar.
E eu feliz a desfrutar
aquele pequeno Paraíso,
tendo em meus lábios um sorriso.

Mas às vezes surgia a tempestade,
e o céu escurecia,
quando de meu pai, severas advertências
ouvia,
por alguma traquinagem de criança
inocente.
Por alguma trampolinagem de infante
Inconseqüente.

Nem tudo é doce como mel.
A vida às vezes é amarga como fel.
E quando uma lágrima
nas minhas faces rolava,
meu pai assim à minha mãe falava:
“Esta menina tem a lágrima na sala de visita.”

Elas eram pequetitas
como as contas de um rosário,
descendo pela face como gotas
cristalinas,
apontando já na minha infância
a sina do Calvário.

Então meu pai amado,
tendo sua zanga acalmada,
colocava-me no colo e me aconchegava.
Enfim minha alegria retornava.
“Não chores chores mais filhinha, meu tesouro.
Teu pai te ama de verdade,
e se às vezes demonstra severidade,
é para te educar,
e para a vida te preparar.
Vamos, dê-me agora um beijinho,
para selar nossa amizade.”

Voltava para mim a felicidade.

2 comentários:

Andréa disse...

HISTÓRIA BONITA, NUNCA É TARDE PRA NADA.

NÃO GOSTO DA PALAVRA POETISA. PREFIRO DIZER POETA, PRA HOMEM E MULHER. A POETA, O POETA.

ASSIM COMO NÃO GOSTO DA PALAVRA MUSICISTA....

BEIJINHO

eLi disse...

Nunca mesmo, Andréa!
E as poesias de Dona Elza mostram até uma certa inocência, sem grandes pretensões. Aos poucos vou trazendo um pouco dela aqui.

Engraçado, eu já gosto dessas palvras. Inclusive musicista.
Mas é questão de gosto - o ofício é o mesmo. E belo!

Beijo