quinta-feira, 5 de maio de 2016
Plenitude
O seu amor,
Ame-o e deixe-o livre para amar,
Ame-o e deixe-o ir aonde quiser.
Ame-o e deixe-o brincar,
Ame-o e deixe-o correr,
Ame-o e deixe-o cansar,
Ame-o e deixe-o dormir em paz.
O seu amor,
Ame-o e deixe-o ser o que ele é:
Ser o que ele é!
(Gilberto Gil)
sexta-feira, 31 de julho de 2009
A blusa amarela de Maiakóvski

A blusa amarela
Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevski¹ mundial com passo pachola²
Todo dia irei flamar qual D.Juan frajola
Deixai gritar amolengada de sono:
“Vais violar as primaveras verdejantes!”
Rio-me, petulante, e desafio o sol!
“Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!”
Talvez seja porque o céu está tão celestial
E a terra engalanada³ tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.
Mulheres que amais minha carcaça gigante
E tu, que fraternalmente me olha, donzela.
Atirai vossos sorrisos ao poeta
Que, como flores, eu os coserei
À minha blusa amarela

Notas:
¹Nevski, de Nevsky. Referência ao príncipe Alexandre Iaroslavitch Nevski. Na Batalha do Neva, em 1240 Alexandre salvou a Rússia de uma invasão inimiga. Ele, aos 19 anos, recebeu o nome de "Nevsky" (em russo, "do Neva"). Depois disso, Nevski foi muito bem sucedido na Batalha do Lago Peipus em 5 de abril de 1242, quando expulsou invasores germânicos, cavaleiros teutónicos (ordem militar, vinculada à Igreja Católica, formada na Palestina, na época das Cruzadas, [fins do século XII]).
²pachola (ó):
Substantivo fem./ masc.
1. Pessoa boa, simples, ingénua, para quem tudo está bem.
2. Pessoa preguiçosa, vadia.
3. Pessoa chalaceadora, gracejadora, brincalhona.
Adetivo fem./masc.
1. Bom; bonito; embelezado.
³ engalanada: engalanar
Verbo
1. Ornar de galas.
2. Ornamentar.
3. Ataviar.
Adjetivo (Engalanado)
1. Ornado de gala; embandeirado.
sábado, 25 de julho de 2009
Fogo azul

Caetano Veloso e a mexicana Lila Downs!
A primeira apresentação de um brasileiro no Oscar,
Neste caso, o ano era o de 2003.
Época em que a canção “Burn it blue”*, tema do filme Frida,
Concorria a melhor canção.
Mesmo não levando o prêmio,
Os brasileiros e o mundo
Presenciaram uma parceira memorável, única.
Arranjo acelerado por violões e violas, que começam na surdina,
Cresce e parece sempre em fuga.
Caetano, bem vestido, mesmo nervoso e tremendo,
Não decepcionou. Um inglês nítido, pausado e consciente,
Aliado a seus diversos gestuais e conhecidos vibratos,
Driblava e entrava em contracanto com o espanhol da parceira.
Em uma parte, enquanto é coberto com a voz feminina, no papel de terça,
Veloso sobe a nota e passa a ser a própria terça, mais aguda ainda.
No desfecho, após diversos desencontros,
Os idiomas se fundem, os cantores fazem as vozes ecoarem,
Como se fizessem ensurdecer o ambiente.
Então, a respiração forte do baiano,
O sorriso da mexicana,
E o alívio do primeiro brasileiro naquele palco.
*Composição de Elliot Goldenthal e Julie Traymor
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Antes do Hino Nacional
Na postagem citei ainda um fato curioso que é a existência de uma letra adicional que ninguém utiliza mais na introdução do hino. Pois é, a introdução que todos conhecem possuía também uma letra.
Recentemente uma moça chamada Daniele comentou o post, me linkando ainda ao vídeo da Escola de Guardas-Mirins de Ponta Grossa, Paraná. Lá a moçada participa de um projeto chamado “Cidadania: exercitá-la é dever de todos”. Esse programa é responsável por divulgar esta introdução cantada do hino, que muitos não conhecem.
Interessante:
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Música de Haydn
Franz Joseph Haydn.Nascido em 31 de março de 1732.
Enquanto criança, era admirado por sua voz.
Era soprano, em um coro em Viena, Áustria.
Aos 18, sem ter mais cor vocal como antes, foi expulso do grupo.
Viveu na rua.
Nas voltas, conseguiu chegar a mestre de capela, coordenando importantes orquestras de câmara.
Teve Wolfgang Amadeus Mozart como um grande amigo.
Mesmo 24 anos mais velho que o garoto, nele tinha amizade recíproca e única.
Haydn considerava Mozart um gênio sem igual.
Para Mozart, Haydn era mestre.
Certa vez, Haydn devia ir a Londres,
Mozart tentou fazê-lo ficar, pois ele estava doente.
Mas Haydn iria mesmo assim.
Ambos se despediram, pensando que poderia ser a última vez.
E foi mesmo.
A surpresa maior é que Mozart (e não o adoentado Haydn) morreria naquele inverno de 1791, aos 35 anos.
Haydn ainda viveria.
De volta a Viena, começa a ter sinais de debilidade.
Entre as peças do considerado auge de sua carreira, está “A Criação”.
Em 31 de maio de 1809 morre em casa,
Aos 77 anos.
Religioso, sempre colocava ao final de seus manuscritos alguma expressão,
Como “Laudate Deo” (“Glória a Deus”).
Mais tarde, Haydn, Mozart e também Ludwig van Beethoven,
Seriam considerados a "Trindade Vienense" da música.
Um pouco do barroco e romântico.
Entre as obras, uma é preciosa: “A Criação” ( do alemão “Die Schöpfung”).
O oratório, de 1797, que explica o surgimento do mundo,
A partir do livro Gênesis (da bíblia) e do poema "O Paraíso Perdido", de John Milton.
Ou ainda a criação dos elementos, onde céu, terra, mar, animais,
Vão sendo criados, vivos em cada nota, até chegar ao amor de Adão e Eva.
Em 2005, Coro e Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo interpretou a peça,
Entre os solistas, o baixo português João Fernandes.

Belo timbre, notas graves e naturais.
Carisma, expressividade ao máximo,
João Fernandes era mesmo o destaque do grupo,
Que tinha ainda a soprano Rachel Harnisch e o tenor Jörg Dürmüller, ambos suíços.
Mas João cativou, muito além da técnica.
Um misto de menino audacioso,
Com seriedade única, na medida que era exigida!
Carisma mesmo.
Talvez por ser português, próximo ao brasileiro.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Sonhar sem ter de pedir desculpas
Mesmo quando tudo trama para o contrário,
Vai um trecho da letra da super canção "Sai dessa" (Ana Terra/Nathan Marques),
Na super voz de Elis Regina:
Sonhei, como faço todo dia,
Como você não sabia, meu senhor, não levo a mal.
A beleza, o amor, a fantasia.
O que tece e o que desfia não se aprende no jornal.
Hoje eu sonhei, mas não vou pedir desculpas.
E nem vou levar a culpa de ser povo e ser artista!
Sem essa, moço, por favor não crie clima.
Seu buraco é mais embaixo, nosso astral é mais em cima!
E, ainda, para não cair no esquecimento,
Um som de autoria de Zé Rodrix (cantor e compositor),
Falecido na madrugada de hoje, aos 61 anos.
"Casa no campo", uma das suas, muito famosa também com Elis.
Aqui, destaque para o belíssimo arranjo de cordas,
Tristemente perfeitas em "Eu quero carneiros e cabras, pastando solenes, no meu jardim..."
terça-feira, 12 de maio de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Patrimônio
A canção oficial. Brasileiríssima!
Por ossos da profissão, costumo acompanhar muitos eventos em que o Hino Nacional é executado. Muitos mesmo.
Mas, apesar da rotina, apesar da formalidade, confesso que me emociono toda a vez em que essa musiquinha é tocada. Me emociono mesmo. Em 98% das execuções (Nos outros 2% desvio o pensamento, para não "pagar mico").
Sinto como algo que podemos chamar de nosso, com toda propriedade, quase como nosso nome, extremamente familiar e da casa. A letra, o clamor. Nosso patrimônio.
Essa parte é tocante, sobretudo com a junção dos acordes:
Mas se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
É, ele também é ariano. Foi executado a primeira vez no dia 13 de abril de 1831, em desacato ao imperador Dom Pedro I, que havia renunciado o trono. Ele acabava de embarcar para Portugal.
A música foi composta bem antes, em 1822, por Francisco Manuel da Silva, em razão da independência brasileira.
A letra viria somente em 1909, após diversas versões e utilidades (algumas letras insultavam os portugueses, quando eles já não estavam mais em alta, no gosto brasileiro). A letra foi concebida pelo poeta e jornalista Joaquim Osório Duque Estrada, em 1909, que venceu o concurso para decidir qual texto se encaixaria melhor à música. Juntas, letra e música, tornaram-se hino nacional brasileiro em 1922. Oficializado pelo então presidente Epitácio Pessoa.
O curioso, nesses mandos e desmandos, alterações de letra do hino, é que a canção possuía uma letra também para a introdução, que hoje conhecemos somente em forma instrumental. A letra foi composta por Américo Moura, presidente da província do Rio de Janeiro entre 1879 e 1880.
É essa aqui:
Espera o Brasil
Que todos cumprais
Com o vosso dever.
Eia avante, brasileiros,
Sempre avante!
Gravai com buril
Nos pátrios anais
Do vosso poder.
Eia avante, brasileiros,
Sempre avante!
Servi o Brasil
Sem esmorecer,
Com ânimo audaz
Cumpri o dever,
Na guerra e na paz,
À sombra da lei,
À brisa gentil
O lábaro erguei
Do belo Brasil.
Eia sus, oh sus.
Curiosíssimo!
terça-feira, 7 de abril de 2009
Profissão
Hoje é lembrado o dia do jornalismo. Uma profissão que já foi considerada até o quarto poder. A busca pela verdade, pelo objetivo, pelo imparcial. Sempre!
Aqui, um poema de Elza Lemke Batalha, poetisa que já citei antes e agora trago para mostrar um significado muito interessante para a arte de escrever.
Antes de ser formado jornalista, antes de ser o buscador do texto pronto, reto e direto, tudo começa com aqueles livros que se tornam especiais, sejam de contos, poesias, etc. A leitura e depois a prática da redação. Escrita. “Gosto de ler e escrever, por isso quero ser jornalista”, era minha resposta, ainda no primário, à velhíssima pergunta sobre o que queria ser quando crescer.
Eis aqui uma bela alusão feita à arte de escrever, pois todos, de alguma forma, têm algo para contar, mas nem todos se aventuram a fazê-lo de forma escrita e pública.
Em homenagem à profissão que é, sobretudo, a de contar histórias:
Cantinho de confidências
Elza Lemke Batalha
Minha história talvez seja bastante singular. Os anos mais produtivos de minha vida (intelectualmente falando), começaram na década de 70, quando a minha poesia eclodiu como um vulcão.
É por isso que considero meus versos, meus amores,
Eles são como meus filhos, gerados em minhas entranhas e surpreendentemente trazidos à luz, pelo meu cérebro.
Uns são tão feinhos! Mas eu, como mãe coruja, vou dizendo: “O que enfeita é esse narizinho!”
Outros são lindos! Meu orgulho!
Alguns são batalhadores.
Guerreiros natos. E quando recebem galardões, meu ego fica assanhado.
Consegui juntá-los, reuni-los no berçário de um livro.
E seguindo o ritmo da natureza tenho que expô-los à vida e soltá-los na correnteza.
Afinal, a mãe passarinho também expulsa seus filhos, quando já grandinhos, do ninho.
Na sua linguagem de pássaro, talvez esteja para eles dizendo: “Vai te virar, comida tens que procurar.”
A sorte está lançada. Até agora os resguardei.
Felicidade para vocês, meus filhinhos!
Espero que encontrem cada coração, um novo ninho.
Este texto serviu de espécie de prefácio para o primeiro livro poesias de Elza Lemke Batalha (Uma lágrima na sala de visitas).
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Uma lágrima na sala de visita
Elza Lemke Batalha é poetisa da minha cidade, Praia Grande. Muitos aqui já a viram em um de seus projetos, que visitava salas de aula, onde recitava poesias, ao som do violão de seu marido, Jares. Enquanto uma moda de viola era executada, aquela voz doce e por vezes até frágil, ecoava e declamava seus textos.A conheci quando eu trabalhava com xerox e semanalmente aparecia aquela figura linda, do tipo que todos queriam ter como avó, para fazer cópias daqueles papéis, que depois eu descobriria tratar-se de suas poesias. Estava querendo montar um livro. Um sonho. E ele veio, em novembro de 2003. O nome dado foi “Uma lágrima na sala de visita”. Veio com muito esforço, com apoio de pessoas que a admiram.
Dona Elza (como sempre a chamo), começou a escrever suas poesias na maturidade, aos 70 anos. Passou a escrever quando conheceu seu grande amor (o primeiro marido a deixou viúva cedo). Em 2002, realizou outro sonho, casou-se na igreja com Seu Jares, seu “muso” inspirador. Estava linda, em plena beleza de seus 81 anos, os olhos ainda em vivíssimos azuis e um vestido lilás.
Hoje, por conta da idade e do sofrimento de sua vida (e não foram poucos), ela costuma se esquecer de muitos detalhes, mas meu nome ela sempre lembra. E a poesia, essa segue sempre rica e pulsante nela. Sinto saudades de Dona Elza e sei que ando lhe devendo uma visita (a última vez que fui à sua casa, em época de aniversário, ela não estava e deixei um vaso de flores à porta).
Segue aqui o poema que é título de seu livro e conta uma história cheia de beleza infantil, escrito já na maturidade.
Uma lágrima na sala de visita
Elza Lemke Batalha
Quando eu era menina,
que tempo saudoso!
Que amor gostoso!
havia em meu lar.
E eu feliz a desfrutar
aquele pequeno Paraíso,
tendo em meus lábios um sorriso.
Mas às vezes surgia a tempestade,
e o céu escurecia,
quando de meu pai, severas advertências
ouvia,
por alguma traquinagem de criança
inocente.
Por alguma trampolinagem de infante
Inconseqüente.
Nem tudo é doce como mel.
A vida às vezes é amarga como fel.
E quando uma lágrima
nas minhas faces rolava,
meu pai assim à minha mãe falava:
“Esta menina tem a lágrima na sala de visita.”
Elas eram pequetitas
como as contas de um rosário,
descendo pela face como gotas
cristalinas,
apontando já na minha infância
a sina do Calvário.
Então meu pai amado,
tendo sua zanga acalmada,
colocava-me no colo e me aconchegava.
Enfim minha alegria retornava.
“Não chores chores mais filhinha, meu tesouro.
Teu pai te ama de verdade,
e se às vezes demonstra severidade,
é para te educar,
e para a vida te preparar.
Vamos, dê-me agora um beijinho,
para selar nossa amizade.”
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Energia
Um poema doce (um fragmento dele)...será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
[...]
Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Quando chegar a hora
In extremis (Olavo Bilac)
Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! De um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! Postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...
E um dia assim! De um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...
E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! E este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais a morte...
Eu com o frio a crescer no coração, — tão cheio
De ti, até no horror do verdadeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!
E eu morrendo! E eu morrendo,
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! A delícia da vida!
Associei então essa morte à um outro texto sobre despedida de quem se ama. Diferente. Dessa vez o texto ganhou vida e identidade perfeita! Musicada na voz de Elis Regina, a letra de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, para “Lapinha”, traz um clima muito festivo a um evento tido como obscuro e indesejável.Gravada em 1988, do disco “Fascinação”, Lapinha é uma versão diferente do texto de Bilac.
Lapinha (Baden Powell / Paulo César Pinheiro)
Quando eu morrer me enterre na Lapinha,Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, palitó almofadinha
Vai meu lamento vai contar
Toda tristeza de viver
Ai a verdade sempre trai
E às vezes traz um mal a mais
Ai só me fez dilacerar
Ver tanta gente se entregar
Mas não me conformei
Indo contra lei
Sei que não me arrependi
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir
Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, palitó almofadinha
Sai minha mágoa
Sai de mim
Há tanto coração ruim
Ai é tão desesperador
O amor perder do desamor
Ah tanto erro eu vi, lutei
E como perdedor gritei
Que eu sou um homem só
Sem saber mudar
Nunca mais vou lastimar
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir
Quando eu morrer me enterre na Lapinha,
Quando eu morrer me enterre na Lapinha
Calça, culote, palitó almofadinha
Calça, culote, palitó almofadinha
Adeus Bahia, zum-zum-zum
Cordão de ouro
Eu vou partir porque mataram meu besouro
:-]
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Dos 3
Dos heterônimos de Fernando Pessoa, o que mais me agrada é Álvaros de Campos. Seu romantismo ligado ao moderno e uma visão mais sóbria das coisas terminam por dar um tom de atualidade às escritas.ilustrações de José Sobral de Almada Negreiros, "homem de muitas artes", português (1893-1970)
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Uma pitada de Olavo

Adoro lê-lo. Sua delicadeza com as palavras, aliadas à extrema simplicidade de seus significados, vêm por desenrolar aquele complicado rolo de linhas entrelaçadas – os sentimentos, tão difíceis de serem exprimidos....
Não tem outro! Coisa de fã.
Deparei me com esse texto num concerto de uma orquestra com o tema pascal, devido à época da Semana-Santa, guardada pelos católicos. Quando ouvi, me impressionei. Sei lá, coisas que simplesmente ficam na cabeça. Ele vem de um livro psicografado por Chico Xavier, que deu autoria a Bilac.
A CRUCIFICAÇÃO
Fita o Mestre, da cruz, a multidão fremente,
A negra multidão de seres que ainda ama.
Sobre tudo se estende o raio dessa chama,
Que lhe mana da luz do olhar clarividente.
Gritos e altercações! Jesus, amargamente,
Contempla a vastidão celeste que o reclama;
Sob os gládios da dor aspérrima, derrama
As lágrimas de fel do pranto mais ardente.
Soluça no silêncio. Alma doce e submissa,
E em vez de suplicar a Deus para a injustiça
O fogo destruidor em tormentos que arrasem,
Lança os marcos da luz na noite primitiva,
E clama aos Céus em prece compassiva:
“— Perdoai-lhes, meu Pai, não sabem o que fazem!...”
domingo, 20 de maio de 2007
Diferentes modos de dizer um só
Eis me aqui...tinha prometido a mim mesmo atualizar aqui semanalmente....ainda chego lá!
Esses dias, com minhas manias de rememorar coisas do passado (ou desenterrar do baú como diria a maioria), me peguei a ouvir um disco de Maria Bethânia, um long play de um amigo meu, que "gentilmente me deu de presente" quando a vitrola dele quebrou (para minha alegria). Ouvindo, pulei imediatamente a agulha para a faixa "Teresinha" de Chico Buarque, música sensibilíssima com uma pitada sutil de humor - dada a simplicidade e ingenuidade da "Teresinha" em falar de seus sentimentos e desejos.
Sem falar na beleza simples do arranjo da gravação, onde a introdução soa como uma verdadeira nuvem de lembranças, efeito causado pela "dança" dos violinos em destaque como se estes dessem voltas em um salão parando ao toque do piano, retomando cambaleante e a tempo. Esse efeito me faz sentir uma espécie de nuvens, daquelas que surgem toda vez que alguém pede para que se conte algo do passado, quando se fecha os olhos e diz "Foi bem assim...", e então, Teresinha começa a recordar e reviver.
Pois bem, ao ouvir essa canção, daquele novato na MPB (um tal de Chico Buarque), canção que na minha opinião é uma das mais bonitas que Bethânia já gravou, ao ouvi-la, fui repentinamente remetido a um texto que me acompanha desde os tempos de escola. O texto é "Caminhos com Maiakóvski", inspirado em um poeta russo - Vladímir Maiakóvski, conhecido no movimento futurista na Rússia no século XX. Eis aí as duas histórias:
Teresinha
(Chico Buarque)
O primeiro me chegou como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada que tocou meu coração
Mas não me negava nada, e, assustada, eu disse não
O segundo me chegou como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar
Indagou o meu passado e cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada, e, assustada, eu disse não
O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração
_____________________________
Caminhos com Maiakóvski
Na primeira noite eles se aproximam,
Colhem uma flor de nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
Já não se escondem:
Pisam nas flores, matam nosso cão
E não dizemos nada.
Até que um dia,
O mais frágil deles
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a lua e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada.
Acho o efeito desse último texto surreal (costumo usar essa palavra para me referir a "amor a primeira vista" com frases, músicas, citações, ou coisas do tipo...Sabe quando você ouve algo pela primeira vez e sai dali sem conseguir esquecer?), isso mesmo, surreal, tanto que carrego comigo até hoje. E quando ouvi o "assustada eu disse não" da segunda parte da música de Chico, me veio logo esse texto falando sobre o medo de dizer não, daqueles que você se arrepende depois. A diferença é que para Chico a moça teve uma reação a tempo, na terceira parte música, mas para Maiakóvski a questão foi contrária. O "assaltante" (noturno) rouba tudo e também a coragem. Não sei se é realmente possível essa ligação, relação ou coisa parecida, dos dois textos, mas gostei do resultado.
Senti o mesmo quando vi "Ballet Stagium", grupo de dança com inovações muito interessantes, interpretar Roda Viva, também de Chico Buarque (que coisa! Esse menino ainda vai ficar famoso). Na coreografia da chamada "dança contemporânea", os bailarinos realizavam as evoluções de acordo com o efeito do refrão "Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião...". E a cada estrofe eles andavam para trás enquanto um texto era lido de trás pra frente, em cima da canção. Para o público, que já ouviu falar de "Roda Viva" em algum momento, restava adivinhar que texto era aquele lido ao contrário. Interessante, o mistério viria à tona no desfecho veloz da canção, quando as rodas "desembestam" sem direção.
E o texto lido era "José" de Carlos Drummond, tão conhecido como a letra de Roda Viva. Revelado o mistério, muitos ficaram surpresos com a semelhança dos dois textos e a forma com que ele foi adicionado à música. Mostrando a situação de um José após o efeito opressivo de uma roda que leva a saudade prá lá........
Vejam os dois textos:
Roda Viva - fragmento
(Chico Buarque)
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá
[...]
_____________________________
José - fragmento
(Carlos Drummond de Andrade)
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
[...]
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
[...]
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse a valsa vienense,
se você dormisse, se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
[...]
Uffa....acho que para semanas sem escrever, chega, né?! Não sei se realmente é possível ver uma relação entre esses textos todos...mas acho que a palavra opressão cabe a todos eles. Me perdoem o excesso de aspas e parênteses, às vezes acho que divago demais.....
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