terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Arroz, feijão e novela

Pessoas que são capazes de qualquer crime em nome de poder, dinheiro e boa vida. Mulheres que sofrem nas mãos de seus maridos, que apanham, acreditam em falsas promessas e pedidos de perdão, e no fim, voltam à mesma situação de violência. Jovens que descobrem amores, condições sexuais e até gravidez inesperada. Histórias são cada vez mais contadas com todo o domínio da ficção e mais ligadas à realidade.

Dentro das telas, as novelas encenam um cotidiano que já não é mais difícil de ser imaginado, sobretudo vivido. Diante das telas, as pessoas assistem e se vêem em tais situações e sentem-se representadas, compreendidas e, em alguns casos, tornam-se motivadas para tomar decisões. A novela brasileira, que aos poucos deixa de ser um passatempo unicamente feminino e sem qualquer função, além da mera diversão, fortifica-se cada vez mais como um elemento de representação do meio social. Ela divide espaço com o arroz e o feijão do jantar caseiro diário.


A empregada doméstica presencia todos os dias o conflito de sua patroa, que tem um filho envolvido no mundo das drogas. Na novela, essa mesma senhora vê uma história de empresários que perdem a vida, a família e os filhos por causa do consumo de entorpecentes. Em outro bairro, um rapaz em pleno ensino médio vive a difícil tarefa de escolher uma profissão para sua vida, ao mesmo tempo em que não sabe como contar aos pais sobre sua orientação homossexual. Na novela da TV, sua história parece repetir-se, naquele personagem gay, que engana a família, casando-se com uma prostituta, para mostrar que ele é o que a própria ficção chama de “ser machão”.

Longe das brigas de emissoras, que, com competência ou não para a teledramaturgia, duelam por audiência com suas novelas, não se pode negar que em algumas exceções, o telespectador ganha um meio de ter seu cotidiano, seus anseios, sofrimentos – sua vida ali revista e encenada. E os autores dos folhetins já sabem dessa necessidade de escrever com realismo, sentimento e humanismo. Não se pode ignorar também que para combater males, preconceitos, crimes, engajar para campanhas de saúde, da não violência, a melhor forma é tocando no tema.

Não é possível falar sobre crimes, preconceitos, violência, sem fazer com que a pessoa que vai assistir, não se sinta emocionada, sensibilizada, revoltada ou chocada. A cada novo título a ser exibido em horário nobre, a promessa de fazer o público se impressionar. Expressões, atitudes e opiniões chocam. E se o fazem, é porque são reais – estão em frente à janela, nas portas de casa ou no bairro vizinho. E se é real, não deve ser encarado com floreios ou cortinas, pois o público não quer ver somente contos de fadas com seres e situações irreais, mas sim, o que vêem, vivenciam e conhecem.

2 comentários:

Arnaldo disse...

Eli, eu não tenho mais nenhuma paciência pra ver novelas na TV. Já fui de ver, no passado, mas há muitos anos que eu larguei totalmente de acompanhá-las. Minha percepção é que a qualidade é muito inferior, mas, provavelmente é um engano meu. O mais provável é que elas sempre tenham sido ruins e eu é que tornei-me mais exigente.

Uma questão que nunca consegui entender: Considerando que uma parcela enorme da população passa as noites vendo novelas, por que será que nas novelas, nunca tem gente assistindo novelas?

Eli K disse...

Olá, Arnaldo.
Realmente a qualidade nas telas é questionável. Mas acredito que há, sim, excessões.
Sobre o questionamento que você deixou, ele é válido sim. Afinal em se tratando de "retratos" do cotidiano, a novela estaria (ou deveria estar) presente também.
Mas, por outro lado, acredito que apesar dessa audiência às novelas, muitos não assumem que o fazem. Preferem dizer que ouviram a vizinha, a esposa, o marido...etc, alguém que contou sobre (sempre sabem o que acontece).
Confesso que não sou tão acompanhador de novela, até porque realmente não tenho parado em casa. Mas acabo vendo um capítulo ou outro na semana e me intero do que se passa. E me impressiona mesmo o teor popular que as histórias têm apresentado. Como ocorre com a personagem de uma mãe que era "quadrada" e que muda de pensamento sobre a vida e passa a apoiar a causa homossexual de uma amiga, e por fim, chamar sua filha, uma adolescente grávida solteira, de antiquada e careta, poiis recrimina a mãe por ser amiga de uma mulher gay.

Enfim, apesar de toda a má-qualidade, de todo o merchandising cada vez mais envolto nas cenas, acredito sim que haja excessões.
E gosto também de ver algumas atuações, raras, que são cheias de sinceridade e profissionalismo.

Obrigado pela visita!

eLi