domingo, 27 de dezembro de 2009

Não te contaram?



Foi uma maravilha a experiência que ele vivenciou em seus quase nove meses de contrato.
O trabalho em navios de cruzeiros marítimos rendeu muita coisa.
Conheceu lugares nunca antes vistos, poupou dinheiro em moeda estrangeira,
Mas também trabalhou muito. Muito mesmo!

Terminou seu contrato,
Obteve promoção,
Para o caso de querer retornar após as férias,
Volta, então, a seu país e à sua casa.
A saudade já estava no limite.

Mas este mar de boas coisas vividas não foi nada,
Perto da avalanche de coisas não vividas,
Enquanto ele esteve fora da terra.

Enquanto trabalhava em alto mar,
Seu avô havia falecido,
Sua avó passara por amputação das pernas, por causa da diabetes,
Um trauma.
A cachorrinha tão querida fugira e não havia sido encontrada.
E a namorada já havia colocado outro em seu lugar.

O fato é que a família decidiu nada contar ao rapaz,
Que soube de tudo, de uma única vez, assim que desembarcou.
Acharam que seria melhor.
Será que foi mesmo?

A família deveria ter contado tudo enquanto ele estava a bordo?
Fez certo em esperar seu retorno?
Isto nem ele sabe responder.
Em se tratando de notícia ruim,
Para ele, tanto faz se vem a cavalo,
Ou a remadas lentas de navio...

Foto: Masterfile

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Caio F. e Elis Regina

Ainda sobre o livro "Para sempre teu, Caio F." (escrito por Paula Dip e sobre o qual postei a primeira vez aqui), achei citações lindas a respeito de Elis Regina (*17/03/1945 +19/01/1982). Caio foi conterrâneo dela, na adolescência (inveja!).


(sobre esta foto, onde Caio aparece observando Elis ao violão, tirada em Porto Alegre nos anos 60, Elis escreveu atrás: "Você saiu bem, eu mal. Vou acabar me convencendo de que sou horrorosa.")

Em 1982, após a morte de Elis, Caio F. declarou:

“Colaborei com a seção de literatura da Veja durante cerca de quatro anos. E pedi demissão quando morreu Elis Regina. Imagino que todo mundo lembre da capa da Veja na época. “Elis Regina, a tragédia da cocaína” – onde tratavam Elis como uma viciada irrecuperável. Coisa de gente não só careta como também mau-caráter. Liguei para o editor de literatura e disse: ‘Por favor, vá dizer ao seu patrão que não quero nunca mais ver meu nome numa revista desse nível.'"

Caio conhecia Elis dos tempos de adolescente, em Porto Alegre, e a chamava de maninha. Em sua homenagem, escreve uma crônica e a endereça a Paula Dip:

“Maninha, precisava ser agora?
Eis, quando eu soube, assim de imediato, não acreditei. Esse vício de eternidade que a gente tem. E logo você, bicho? Tão agitadinha, tão atrevidinha e cheia de vida. Fui ao banheiro lavar o rosto, molhar os pulsos e olhar bem a minha cara cansada de 33 anos. Quando saí e espiei em volta tudo continuava lá. Feito nada tivesse acontecido Lembrei duma história da mitologia grega. Contam que quando morreu Pan, o deus da música, alguns pescadores ouviram uma voz misteriosa gritar numa praia deserta: ‘O grande deus Pan morreu!” E nunca mais se ouviu falar dele. Hélice – como te chamava a Rita, acho que por causa daquela sua mania antiga de girar os braços enquanto cantava, em tempos de Arrastão – eu não sei o que estou sentindo. Depois do trabalho, saí a procurar pelas ruas do centro da cidade um sinal qualquer que confirmasse ou desmentisse tua partida. Não encontrei nada. As lojas não tocavam seus discos. Ninguém caminhava devagar. Não havia nenhuma melancolia específica no céu, além do cinza habitual. Só eu assobiava baixinho “Acender as velas já é profissão, quando não tem samba, tem desilusão”. (Vezenquando, só de sacanagem, você dizia ‘Quando não sou eu, é Nara Leão’, e dava aquela risada gostosa.) Então peguei um táxi e vim embora. Pedi para o motorista ligar o rádio, mas tocava Núbia Lafaiete. Você acharia engraçado. Pedi para ele parar antes de casa, comprei duas garrafas de vinho. Estou no meio da segunda. Pimentinha, que difícil que tá. Você tem que amar quem você ama agora, JÁ, você tem que começar a fazer tudo o que você quer porque a bruxa tá do lado esperando. Elis, eu também vou morrer nem sei quando. Antes eu queria tanto ser feliz. Embora nem saiba como é isso. Acendo uma vela branca procê ir embora numa boa. Abro as janelas e ponho bem alto você cantando ‘Primeiro Jornal’, porque é assim que quero te guardar, juntando tua voz matinal aos restos dos sons noturnos que ainda boiam na casa. Não tenho medo da morte. Tenho medo da vida. Baixinha, foi tão de repente... Mas ainda ontem, todo domingo de manhã eu ia ao cinema Castelo assistir você cantando no programa do Maurício Sobrinho, da Rádio Gaúcha. Você vinha com aqueles vestidos repolhudos cantar ‘Banho de lua’ e aquelas versões tipo Fred Jorge (Vixe, como tô ficando veio, guria!). No fim todo mundo aplaudia de pé, dançava e cantava junto. Depois, feito a Janis Joplin fez com Port Arthur, você saiu de Porto Alegre. Foi ser estrela na vida. Falavam mal, então como falavam: porque isso, porque aquilo, porque você chiava como carioca, que era metida que nem parecia ter saído dali do Partenon, que parecia que tinha Deus na barriga (descobri depois que você tinha mesmo, não na barriga, mas na voz). Nunca mais te vi ao vivo, só no finzinho do ano passado, no Anhembi. De repente você disse que queria falar com Deus. Eu me arrepiei. Parecido com quando você cantava ‘Atrás da porta’. Ou quando, naquele inverno comprido eu atravessava noites bebendo conhaque ouvindo ‘As aparências enganam’. Uma vez a Paula Dip bateu na porta enquanto você cantava e, mal abri, ela caiu no choro, porque tinha vindo contar-me coisas sobre esses enganos, essas aparências.
Maninha, precisava ser agora? Em pleno verão, o sol quase em Aquário. Sei que teu coração não aguentava mais tanta barra. Sacanagem... E juro que agora eu ouvi você rindo assim: quá-quá-rá-quá-quá. Tô sentindo um oco, Hélice. Tão ruim. O dia não conseguiu chover: eu queria agora chorar todo o choro que o dia não chorou por ti. Não consigo. Eu tenho a impressão de que poderia reconstituir, dias após dia, desde uma daquelas manhãs de domingo no Cine Castelo (que coisa mágica, eu tinha 12 anos, você 15) até estas duas da madrugada de hoje? Consigo não, Che. A gente, que é gaúcho, se entende. O tempo existe, Pimentinha, e passa, leva no arrastão as coisas e as pessoas que não morrem: ficam encantadas. Y solo resta el silencio, un ondulado silencio...
Nós te amávamos tanto, tanto. Guria. Até.

Caio Fernando Abreu"

A escritora do livro, Paula Dip, ainda acrescenta uma experiência sua, com relação à partida de Elis, quando foi fazer uma matéria de cobertura:

“[...]com naturalidade das pessoas acostumadas àquele tipo de trabalho, Shibata [Harry Shibata, médico] – que era considerado conivente com a tortura no governo militar – demorou para me passar o laudo, mas fez questão de exibir fotos de Elis, sobre a mesa de necrópsia, com um corte vertical do queixo à pelve, fechado por grampos de metal.
Eu nunca havia visto nada parecido. Foi horrível ter a maior cantora do Brasil tão exposta e indefesa. Tinha apenas 36 anos.”


(nesta imagem, Caio F. e Paula Dip, amigos também de trabalho, aparecem em fotos trocadas, tiradas por eles mesmos, em meio a uma pausa)

[O Livro: Para sempre teu, Caio F. Cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu. 2009. Editora Record]

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Caixa de correio

“A gente não deve permitir que as cartas se tornem obsoletas, mesmo que, talvez, já tenham se tornado.”



A frase é de Caio Fernando Abreu, ou Caio F., como gostava de assinar. Além de ter o jornalismo como profissão (fez parte da primeira equipe da revista Veja, em 1969), Caio teve na literatura uma paixão de vida. Além disso, adorava escrever cartas aos seus queridos. Bilhetes, memorandos, páginas e páginas quase sempre datilografadas.
Após sua morte, em fevereiro de 1996 (nasceu em 1948), uma grande amiga sua, Paula Dip (também colega de profissão), reuniu cartas e memórias deixadas por Caio F. e as transformou em um belo livro.



O meu exemplar de "Para sempre teu, Caio F.", ganhei da amiga Clélia Riquino, com quem adquiri o hábito de trocar diversos e-mails, que tinham o mesmo efeito de cartas pelo correio. A cada mensagem, um registro a cerca de alguma obra sabida/lida/conferida/indicada, ou sobre o clima/tempo em casa, sobre algum fato, ou, ainda e simplesmente, sobre como estava o dia de cada um. Assim foi que Clélia me deu esse presentão, sobretudo, para mim, que gosto do envio de cartas pelo correio. O livro é, mesmo, interessante. De carta em carta (enviada por Caio e também recebida de seus amigos, admiradores, próximos e etc) vai se conhecendo muito dele, e também da época em que ele vivia, dos amores, dos cheiros, sentimentos e climas encontrados nas cidades. Nesta hora, é como se o leitor recebesse as cartas trocadas em sua caixa de correio e se intera de uma época que pode até ter vivido, mas não sob tal visão/ponto de vista.

Hoje em dia, quem envia cartas a amigos pelo correio é tido como "cult", "retrô", ou antigo, atrasado, anti-tecnologia...

Quando foi a última vez que você endereçou a alguém uma carta pelo correio??

domingo, 20 de setembro de 2009

O menino que copiava

Era por meio das máquinas de xerox que ele descobria todo um mundo.
Sua função era a de copiar.
Atendia o pedido, pegava, copiava, devolvia. Originais e cópias.
Por suas mãos muita coisa passava.

Era hábito, uma tradição, com documentos para copiar,
Observar qual era a data de nascimento da pessoa.
Comparava as idades com a sua própria,
Verificava o signo e tentava, assim, descobrir algo da personalidade.
Chegou a encontrar aniversariantes do mesmo dia que o seu,
Quando o dia da festa era aquele mesmo,
Tomava a liberdade e dava os parabéns.

Quando a fonte a ser copiada era algo interessante,
Fazia uma para si também.
Desta forma, obteve os melhores livros de inglês,
As melhores reportagens de revistas,
As mais importantes passagens de livros de poemas,
As imagens mais curiosas e belas.

Deu-se certa vez alguns recortes de jornais,
Como aquele que tratava da morte do Elvis Presley.
Ou ainda guardou uma carta em inglês de uma mãe para filho nos Estados Unidos (era para treinar seu inglês, apenas, e não por bisbilhotice).

Não considerava o ato de copiar as coisas para si um crime,
Muito menos invasão ou utilização abusiva.
Acabava por ser um ato secreto e somente seu.
Para ele, era uma facilidade, uma cessão natural,
A partir da confiança a ele creditada no balcão.
E assim, de cada duas cópias,
Uma era para ele.
Algo como um investimento.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Nostalgia

Uma canção que se encaixa no meu atual momento de despedida...dentro desta fase de transição, mudança de profissão/ofício...

Esta é das antigas do Roberto Carlos. Na verdade, para mim, Roberto foi muito mais feliz em sua mocidade! Ainda e sempre romântico, mas sem rimas baratas e arranjos sem sal que ele apresenta hoje em dia, de uns 15 ou 20 anos prá cá.
Cresci ouvindo esta música, com meu pai dizendo que falava de um acidente com o Roberto, ainda jovem.
Ela me faz lembrar coisas antigas, de despedida, saudade...
Acho que, para cada um que a ouve, ela se encaixa bem em sua história e recordações. Meio que serve para qualquer um que ouve.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Suicida assassina

Ela decidiu dar um basta naquilo tudo.
Acabar até a raiz. Eficaz e ponto.
Por vezes tentou se deixar levar,
Tentou alguém que a levasse.
Mas nada. Nada aconteceu.

Estudou, estudou e chegou ao plano que lhe pareceu ideal.
Terceira janela, oitavo andar!
Local perfeito, ante a última crise.
O segredo para acabar com o mal que julgava nada poder fazer contra.

Jogou-se.
Foi morrer caindo em cima de um pedestre.
Este, caminhava à tarde,
Com sua esposa. E morreu também.
Mesmo nada tendo a ver com os surtos da suicida.

sábado, 22 de agosto de 2009

Comunicado anônimo

Quando se conheceu aquela pessoa quente,
Quando percebeu-se que o momento era aquele mesmo.
Quando qualquer pudor pareceu nada ser,
Quando a vontade que houve era a de consumar o contato profundo de carnes.

Quando a prevenção não foi a principal meta,
Quando precaução faltou, entre gemidos ardentes.
Quando proteção própria sequer passou pela cabeça,
Muito menos entrou na relação.

É quando o resultado, após semanas,
Foi aquele contrário ao que se esperava.
É quando o diagnóstico parece ser cruel, positivo,
Mas é preciso ser enfrentado (e em alguns casos, eliminado).

É possível reconhecer,
É preciso tratar,
É bom alertar:
Sexo é sem DST!



Campanha “Muito prazer, sexo sem DST", do Ministério da Saúde, sobre a necessidade de a pessoa avisar aquele que é (foi) seu parceiro, mesmo que anonimamente, sobre uma possível contaminação consigo, havida após a relação sexual.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Cúmulo do machismo

Dois amigos, no escritório, após uma ligação recebida em viva-voz...

“Nossa, que voz diferente!”
“Acho que é aquela estagiária nova.”
“Aquela bonitona???”
“É sim, aquela.”
“A tá...mas ela anda com camisinha na bolsa...”

¬¬

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Partidas*

Ela lutou a vida toda.
Casou-se, teve filho.
Perdeu o marido em desastre de carro.
Já não tinha trabalho.

Procurou, tentou ofícios.
Sem sucesso.
Quando a proposta salarial não era boa,
Era o modo de trabalho que não compensava.

Resolveu mudar!
Deixou o filho com os pais.
Embarcou na ideia de trabalhar em alto mar.
Viveria temporadas de nove meses em cruzeiros marítimos.

Juntou dinheiro nesse tempo de muito trabalho.
Deu mesmo a volta por cima.
Conquistou sua casa, carro, tranquilidade.
Ficava fora de casa por muito tempo,
Deixava saudade e a levava também.
Mas não podia negar que o sucesso havia conquistado.

Certa vez, em um fim de contrato,
Desembarcou em casa, de volta.
Seus pais, radiantes e ansiosos por demais.
Mal podiam esperar.

No porto, beijou mãe, filho.
Beijou o pai, que caiu de repente.
Morreu de infarto, ali mesmo.

Um abraço e um beijo,
Foi o máximo que ele conseguiu esperar.

*Republicando (de 22 de maio). Sem motivo certo, mas republicando.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Quase um bell boy, prestes a embarcar



Foi criado um espaço novo,
Destinado a relatar, a partir de 25 de outubro,
Conhecimentos e experiências.
Será local para relatos em primeira pessoa.
O que raramente ocorre aqui, com contos sempre em terceiras.

Na nova página, uma forma de comunicar e se comunicar,
Um local para momentos de sobrevivência,
Quando somente as palavras das pessoas em terra
Serão o bastante para amenizar a solidão em mar.

Quando o contador acima zerar,
Será porque a nova experiência estará para começar.
Será quando a vida de jornalista emprestará um pouco ao novo ofício,
O de mensageiro de hotel, mas no navio.
Bell boy, tripulante. Em cruzeiros marítimos.

Sem endereço certo,
Sem tempo, sem rotinas,
Mas com muito, muito trabalho. Muito mesmo.
E meta$$$, objetivos e sonhos a realizar.

Será que tem tanto espaço para tudo isto,
Na mochila de uma única pessoa?

Aqui, em 20 anos Blues, os contos serão menos frequentes,
Pois as experiências estarão em outro endereço,
No “bell boy a bordo”.
Assim, qualquer um pode sentir-se à vontade
Para acessar a página, onde terá o autor de sempre,
Mas em uma nova fase.

Isto tudo após 25 de outubro.
Já os contos daqui, estes aqui permanecerão.
Também estarão abertos, como sempre estiveram,
Para leituras e comentários.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Gratuito

Na rua, um portador de necessidades especiais fez menção de parada de um ônibus, mas desistiu quando viu que este estava cheio.
O coletivo, ao parar no semáforo adiante, já fora do ponto, foi abordado por um outro senhor, que logo se dirige ao motorista. "Você não quis parar para o deficiente, você sabe que está errado e eu posso te denunciar para seu superior!!! Você não pode fazer esse tipo de discriminação ‘rapá’", atacou o velhinho que simplesmente tomou as dores do rapaz de muletas, deixando o condutor sem mudo, sem reação e sem entender completamente nada.
O motorista calado...
"Venha cá moço", ordenou o delator, triunfante e justiceiro, ao homem com dificuldades de andar. "Agora você pode entrar!"
A suposta vítima, para esclarecer tudo, disse se tratar de um mal entendido (da parte do dedo duro, claro). "Eu ia pegar o ônibus, mas vi que estava cheio demais e assim sinalizei ao motorista que não parasse.”
“Tome! Está satisfeito agora?”, fala pela primeira vez o motorista, que de culpado nada tinha.
O velho fuxiqueiro ainda assim não conseguiu reconhecer seu erro infeliz e se retratar. "Você não sabe de nada. Você é um merda.
“Merda é você, vá caçar algo de útil para fazer, justiceiro sem causa.”

Vai entender.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A blusa amarela de Maiakóvski


Para o fim de julho, uma transcrição de palavras de um de meus poetas favoritos, Maiakóvski, russo, que teria hoje 116 anos (7 de julho de 1893 - 14 de abril de 1930 [já publiquei sobre ele aqui e aqui também]). Esse poema fala de uma blusa especial para ele. Eram muitos que se referiam a Maiakóvski como "um grandalhão vestido numa blusa amarela". Todos o conheciam por conta dessa vestimenta, que, por vezes, dava a ele um visual extravagante. Mas ele nutria mesmo um forte apego por esse acessório.

A blusa amarela
(Escrito por Vladímir Maiakóvski, em 1913. Tradução de Emílio Carrera Guerra)

Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevski¹ mundial com passo pachola²
Todo dia irei flamar qual D.Juan frajola

Deixai gritar amolengada de sono:
“Vais violar as primaveras verdejantes!”
Rio-me, petulante, e desafio o sol!
“Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!”

Talvez seja porque o céu está tão celestial
E a terra engalanada³ tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

Mulheres que amais minha carcaça gigante
E tu, que fraternalmente me olha, donzela.
Atirai vossos sorrisos ao poeta
Que, como flores, eu os coserei
À minha blusa amarela
___________________________________________________________
Na imagem acima e nas de baixo, Maiakóvski vestido em sua sempre blusa amarela:


Notas:
¹Nevski, de Nevsky. Referência ao príncipe Alexandre Iaroslavitch Nevski. Na Batalha do Neva, em 1240 Alexandre salvou a Rússia de uma invasão inimiga. Ele, aos 19 anos, recebeu o nome de "Nevsky" (em russo, "do Neva"). Depois disso, Nevski foi muito bem sucedido na Batalha do Lago Peipus em 5 de abril de 1242, quando expulsou invasores germânicos, cavaleiros teutónicos (ordem militar, vinculada à Igreja Católica, formada na Palestina, na época das Cruzadas, [fins do século XII]).

²pachola (ó):
Substantivo fem./ masc.
1. Pessoa boa, simples, ingénua, para quem tudo está bem.
2. Pessoa preguiçosa, vadia.
3. Pessoa chalaceadora, gracejadora, brincalhona.
Adetivo fem./masc.
1. Bom; bonito; embelezado.

³ engalanada: engalanar
Verbo
1. Ornar de galas.
2. Ornamentar.
3. Ataviar.

Adjetivo (Engalanado)
1. Ornado de gala; embandeirado.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mérito mundial


A seleção brasileira de vôlei entra em cena
E a emoção sobe.
A vibração é total,
Passa através da tela!
Como se a partida fosse disputada no quintal de casa.

E como defendem nossas cores...
Como valorizam a modalidade,
Driblando o preconceito e a falta de reconhecimento.
Entre eles, uma mistura de meninos experientes
E outros recém-chegados.

Ainda são daqueles que jogam por amor, por honra,
Sem deixar que contratos milionários apareçam mais do que o esporte.
E assim chegam oito vezes ao pódio mundial.

Com eles, há a sensação de que a vitória é certa (e merecida).
E sempre a segurança de que conosco ninguém pode.

É orgulho ao extremo,
De fugir ao alcance.
De levar às lágrimas nos passes,
Nos pontos ganhos, no lances.
Emoção que segue até o hastear da bandeira
E o executar do hino.

Fotos: Uol

segunda-feira, 27 de julho de 2009

União



Ela cresceu ouvindo:
Noiva que come na panela
Terá chuva no dia do casamento.
E não deu outra.

Desde o início do dia,
Chegando à massagem especial,
Ao fazer o pé, mão, cabelo, maquiagem.
As gotas estavam lá, do lado de fora da janela,
Persistentes, com se dissessem:
“Não liga não, hoje não temos horário para ir embora.”

Isso não tirou em nada a beleza do dia.
Não diminuiu em nada a importância da ocasião.
Nem sequer o anúncio do cerimonial,
Que fez questão de lembrar aos noivos que eles precisavam se confessar.
Ou não entravam. Normas da religião.

Entra um religioso no carro da noiva,
Expulsa o chofer e ouve a moça.
Corre o noivo ao confessionário,
Antes de fazer sua entrada com a mãe.

Passada a correria,
No altar, todos eram nervosismo e comoção.
Como estava lindo o casal!

O riso veio solto,
Quando o padre evidenciou que a aliança recém-trocada
Estava na mão errada do noivo.
Ela teria colocado no dedo errado?
Ou fora ele que estendera a mão trocada?
Tudo só contribuiu para que a cerimônia fosse bela
E única.

Nada disso importava,
Pois os jovens namorados,
Agora casados,
Recebiam um mundo de bons desejos,
Em abraços, beijos e palavras.
Para levarem à nova vida que acaba de começar.











Fotos: Eli Carlos Vieira

sábado, 25 de julho de 2009

Fogo azul


Um dueto perfeito.
Caetano Veloso e a mexicana Lila Downs!
A primeira apresentação de um brasileiro no Oscar,
Neste caso, o ano era o de 2003.
Época em que a canção “Burn it blue”*, tema do filme Frida,
Concorria a melhor canção.

Mesmo não levando o prêmio,
Os brasileiros e o mundo
Presenciaram uma parceira memorável, única.

Arranjo acelerado por violões e violas, que começam na surdina,
Cresce e parece sempre em fuga.
Caetano, bem vestido, mesmo nervoso e tremendo,
Não decepcionou. Um inglês nítido, pausado e consciente,
Aliado a seus diversos gestuais e conhecidos vibratos,
Driblava e entrava em contracanto com o espanhol da parceira.

Em uma parte, enquanto é coberto com a voz feminina, no papel de terça,
Veloso sobe a nota e passa a ser a própria terça, mais aguda ainda.
No desfecho, após diversos desencontros,
Os idiomas se fundem, os cantores fazem as vozes ecoarem,
Como se fizessem ensurdecer o ambiente.

Então, a respiração forte do baiano,
O sorriso da mexicana,
E o alívio do primeiro brasileiro naquele palco.




*Composição de Elliot Goldenthal e Julie Traymor

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Não reagente

Todo semestre é uma luta no laboratório de exames.
Desde que quis viver de acordo com o que é naturalmente orientado,
Conheceu também certo riscos.
Ganhou medos e mais precauções.

Janelas imunológicas,
Contatos de risco,
Preservativos que faltaram ou não foram eficazes.

Escolhas e consequências,
Culpas e ansiedade.
Cogitações, possibilidades.

No fim, diante da mesa,
O resultado é um só.
Só pode ser um.
Negativo de novo.

E o alívio retorna,
A vida retorna,
A saúde.
Pelo menos até o próximo teste.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sabedoria infantil

Criança é original em tudo.
Sem malícia, diz as coisas porque quer dizer e p(r)onto.

Durante uma visita de crianças da rede básica de ensino,
Ao posto do Corpo de Bombeiros da cidade,
O instrutor, salva-vidas, paciente, dá dicas de como prestar primeiros socorros,
Em caso de afogamento e emergências.

Ao utilizar um manequim de plástico,
Para simular aplicação de técnicas de respiração e reanimação,
Entre as normas, está a de utilizar uma espécie de tubo ou máscara.
Ela possibilita que o socorrista, ao realizar a respiração no socorrido,
Faça o procedimento sem contato direto com a boca.
Questões de higiene, precaução.

Uma das crianças estica o dedo, para perguntar.
Na verdade era uma colocação urgente a ser feita:
“Tio, quando é respiração boca a boca em uma mulher você não coloca essa máscara, né?”

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Contagem regressiva


A fase é para mudanças.
Porque é preciso e esperado.
De ares, de mares. De (m)ares.
Escolhas, decisões, trocas,
Provisórias e (quem sabe) permanentes.
Quem sabe?

Faltam 100 dias agora.
A certeza é quase total.
Para a hora do embarque
E a descoberta do novo.

Será hora de trocar temporariamente,
A vida de jornalista,
Pela de aventureiro e bellboy,
Mensageiro de navio.
Para ver, sentir, experimentar.
TRABALHAR!
Para retornar com a bagagem cheia.
De sonhos, expectativas e novos sonhos.

É preciso arriscar enquanto se pode,
É preciso tentar enquanto é possível.
Não se pode recusar, sem antes conhecer.
Não há como conhecer, sem vivenciar.
Será hora de se jogar,
Cair no mar.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Mobilização suspeita

O esquema é especial.
Manhã pós feriado, no bairro Boqueirão,
Corredor comercial em Praia Grande.
Notícia policial.

Prédio bloqueado, cercado e evacuado.
Muitas viaturas e até o helicóptero pairava sobre a cena.
Diversos homens fardados,
Armados e de escudos de proteção.

A Força Tática invadiu o edifício,
Vasculhou todas as salas.
Após 40 minutos de procura: nada.
Foram ao telhado do prédio,
Mais nada.

A essa altura, o público já estava presente.
Aglomerado, querendo saber o que se passa.
Uns citam uma morte no prédio,
Outro curioso diz que são dois mortos e muitos feridos,
Outro acredita ainda que nada houve.

O policial sai do prédio e diz que nada ocorreu.
O público exclama um sonoro desapontamento,
“Ahhhhhhhhhhhhhhh...”

O fato é que nada houve mesmo.
Um homem entrou em uma das salas do prédio.
Queria se informar, mas perguntava demais.
Isso causou desconfiança na atendente.
Até que o rapaz coçou sua barriga.
“É um assalto!!!”, berra ela, fechando as portas,
Alarmando o prédio inteiro, por causa de um gesto suspeito.
E deu no que deu. Em nada.

As pessoas andam mesmo vendo muita violência na TV.
Ao passo de sentirem-se a todo momento,
Em uma cena de filme de ação.

E evitam-se nas ruas,
Trocam de calçada até, evitando o outro.
Suspeitam de olhares,
Risos e também coçadas.
Ninguém parece estar a salvo,
Ninguém parece ser inocente.




sexta-feira, 10 de julho de 2009

Antes do Hino Nacional

publiquei aqui sobre o Hino Nacional, sobre sua importância e do poder emotivo que ele influi em mim.
Na postagem citei ainda um fato curioso que é a existência de uma letra adicional que ninguém utiliza mais na introdução do hino. Pois é, a introdução que todos conhecem possuía também uma letra.

Recentemente uma moça chamada Daniele comentou o post, me linkando ainda ao vídeo da Escola de Guardas-Mirins de Ponta Grossa, Paraná. Lá a moçada participa de um projeto chamado “Cidadania: exercitá-la é dever de todos”. Esse programa é responsável por divulgar esta introdução cantada do hino, que muitos não conhecem.
Interessante:



segunda-feira, 6 de julho de 2009

Foi tudo culpa do amor?

Eles dois sempre viveram bem.
Relação estável, discreta, sabida entre amigos.

Mas em um dia desconhecido,
Durante exames de rotina,
Um deles descobre ser soropositivo.

O outro resolveu submeter-se ao teste,
Para comprovar o que já tinha certeza.
Também estava infectado.

De nada adiantaram os questionamentos,
Nem desconfianças puderam haver.
Não que eles, como casal, viviam uma relação aberta.
Mas antes, solteiros, não costumavam contar com quantos saíam.
Muito menos fazer acompanhamento periódico da saúde.

No começo, a coisa foi fácil de levar.
Depois, o relacionamento foi firmado
Na base de brigas e desentendimentos.
Cobranças demais.
Admissão de responsabilidades de menos.

Então, o mais afetado deles
Se aproveita da macarronada de domingo,
E, enquanto a água da massa fervia no fogão,
Pegou nas alças da panela,
E arremessou a água fervente no seu amado.
Sem apagar o fogo. Foi a gota.

Apesar da cena, das queimaduras e marcas,
O relacionamento foi o único a ter fim naquele dia,
Com aquele gesto.
Que resultou na saída do agressor fracassado da casa.

Mas nem a culpa,
Nem o ódio (sobreposto ao amor),
Muito menos o HIV,
Nem o arrependimento.
Nenhum desses foi embora.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Quando tem de ser ou não a hora

Ele andava tranquilo, na manhã de sexta-feira.
Precisava chegar ao trabalho,
Mas não estava necessariamente com pressa.

Ao atravessar uma passagem subterrânea para pedestres,
Ouviu um estrondo vindo de cima,
Da ponte, da Via Expressa.
Algo soou como descontrole e risco.

Um caminhão acabava de colidir na mureta,
Até beijar direto o chão, bloqueando a passagem subterrânea abaixo,
Que o rapaz acabara de cruzar.
Por pouco não foi ele o beijado pelo veículo.

Na verdade, um dos pneus explodiu,
E fez o gigante perder o controle.
Três ocupantes feridos, mas vivos.

E para os amigos que não acreditarem no caso,
Do pedestre que por pouco não foi alvo,
Uma câmera registrou tudo,
E apareceu até no jornal.



Minutos antes, ainda na Via Expressa,
Um outro caminhão trafegava,
Quando viu um homem a atravessar a pista.
Encontraram-se violentamente.

O choque foi fatal para o pedestre,
Que provavelmente estava apressado,
Pelo menos a ponto de não utilizar a passagem subterrânea,
Destinada somente a transeuntes.
Preferiu correr o risco de atravessar uma via perigosa.
Imprudência que para ele, que há minutos estava vivo,
Justificou a atitude de enfrentar os carros em velocidade.


Em um outro bairro, um pacato zelador
Varria a calçada,
Quando foi atingido por uma pedra no olho,
Jogada não sabe de onde.
Achou até que era bala perdida.
Muito sangue, ardência e mais sangue.

Teve sorte, o material atingiu apenas o osso que contorna o olho,
Imediatamente abaixo da sobrancelha.
Deixou um pequeno roxo e inchaço.
“Por pouco não atinge minha visão”,
Ele reflete.
Por pouco mesmo.
Fotos: Edmilson Lélo

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ajudando a partir

Não é qualquer um que está preparado para mudar radicalmente de vida. Raros também são os que fazem essa alteração por decisão própria, como se fosse um evento agendado a curto ou médio prazo em suas agendas. Se o campo é o profissional então, mudanças bruscas demandam cautela em excesso e provocam até medo, pois estão em jogo elementos como ideologias, status e estabilidade (principalmente financeira). Para sobrevivência profissional, o mercado exige cada vez mais flexibilidade de candidatos, seja para trabalhar como músico de orquestra ou preparador de corpos para sepultamento.

A Partida, (do título inglês Departures e do original Okuribito) é um longa japonês premiado com o Oscar 2009 de melhor filme estrangeiro e que é exibido agora no Brasil. A trama expõe o desemprego de uma forma brilhante, impressionante e muito bem concebida. Ele é, sobretudo, eficaz, fazendo com que aquele que assiste, reflita sobre quando é hora de arriscar na sua vida.
No longa, o experiente ator japonês Masahiro Motoki vive o jovem Daigo, que encontrava-se estável no emprego de violoncelista de uma importante orquestra em Tóquio. Após a notícia de falência do grupo e o desemprego inesperado, o músico se vê em sua primeira decisão mais difícil: deixar de lado, pelo menos temporariamente, o que mais gostava de fazer. E ele o faz, afinal era preciso, acima de tudo, sobreviver.

Após um anúncio no jornal, Daigo vê uma possibilidade. Ao chegar na agência empregadora, percebe que o trabalho não é o que pensava, ou pelo menos não era o que estava habituado a fazer. Mas como nada parecer ocorrer ao acaso, ele tenta, arrisca e ver onde isso vai dar. Nessa busca de um caminho, o rapaz aprende não só o novo ofício de lavar corpos antes de colocá-los no caixão, mas descobre ali sua vida.
A partir da decisão de prosseguir no ofício (que o remunera muito mais do que a orquestra), o rapaz enfrenta não somente tabus e preconceitos próprios, mas também a desaprovação da esposa, de amigos e do bairro em que é conhecido. Dos temores iniciais sobre suas atribuições às ânsias de vômito em algumas situações, tudo é facilmente superado, quando ele realmente encontra o que procurava e o que realmente passou a importar para ele: o sentimento de realização.

E tudo passa a ficar mais simples e mais prazeroso de encarar a cada dia. Daigo percebe que nada pode ser tão difícil ou insuperável, e que não há bom ofício ou profissão vergonhosa: há aquele trabalho em que a pessoa se identifica ou não, simplesmente. E, uma vez nessa profissão de sua vida, o jovem se torna destaque, o mais dedicado e o melhor profissional que se conhece no bairro.
Um filme muito bem feito, que alia sutilmente cenas naturais que levam às risadas e também passagens de fazer chorar - tudo de forma elaborada. Humor na medida certa, no ponto, sem ser gratuito. Drama não por drama somente, mas a ponto de incentivar a reflexão, o "se colocar no lugar", se sentir como o personagem no telão, mas sobretudo se voltar a si, humano. Daquelas obras capazes de mudar pensares, atitudes e levar pessoas a repensarem seus tabus, preconceitos e principais bloqueios. Destaque para a trilha sonora, responsável por grande parte do teor emotivo das cenas - é o violoncelo em destaque.




segunda-feira, 29 de junho de 2009

Disputa no condomínio

Dia de reunião de condomínio é uma guerra.
Em eleição de síndico, então, a coisa fica séria.
É quando se vê uma legião de donos de apartamento,
Querendo se livrar de suas mensalidades,
E viver a vida de “isento” de síndico.
Mas, atolados em dívidas de condomínio atrasado,
Nem candidatos podem ser.

Para quem não se elegeu,
Fica ainda o objetivo
De até tirar o cargo de faxineiro ou zelador,
E tomá-lo para si,
Diante da estabilidade que há no ofício.
Visto nos valores discriminados todo o mês ao prédio.

Para o assalariado, que pouco sempre teve,
Parece ter sido mais fácil investir em sua casa, carro,
E formação básica para os filhos, que hoje estão todos empregados.

Já os “bem de vida”,
Diante do quase nada que conseguem manter atualmente,
Colocam os olhos no salário do funcionário bem pago do prédio.
É questão de sobrevivência.
É quando se pensa que vale tudo.
Desempregar o empregado,
E empregar a si mesmo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O violoncelista de Sarajevo

Longos quatro anos de cerco à Cidade,
Bombas, granadas e outros meios artifícios,
Que tiravam vidas, despedaçavam outras,
E ameaçaram muitas mais.

Em meio ao som explosivo, bruto e sangrento,
Acordes de uma composição barroca,
Solene, piedosa, muito triste,
Com momentos de positivismo, de reação,
E toques de relutância,
Executada apenas por um violoncelo.

Todos os dias, às mesmas e sempre 16 horas,
O violoncelista parava em frente a um prédio,
E executava a mesma canção.
Assim seria por 22 dias.

Pois 22 era o número de mortos,
Que encontravam-se certa vez naquele horário, em uma fila de padaria,
Quando tornaram-se alvos de uma bomba.
E perderam para sempre suas histórias.

Quem passava por perto,
Em busca de algum lugar com água para sobrevivência, ouvia.
Quem permanecia em casa,
Por medo e também sobrevivência, também ouvia.
O som ecoava e por alguns minutos dava esperança e alimento.

O músico não sabia ao certo do que, de fato, se tratava aquele ato,
Protesto, homenagem ou luta.
Simplesmente algo o movia todos os dias,
Em seu traje de gala, indiferente aos tiros ou ameaças.
E até a uma possível nova bomba ali.

O protesto se seguiu até o 22º dia,
Sem que o artista fosse eliminado.
Sem que seu adágio fosse sequer interrompido,
Sem que seu espírito de revolta desaparecesse.

Talvez a força esteve mesmo em seu discurso,
Em sua música,
Em sua luta em clave de Fá,
E com muito respeito.
Aos mortos, à vida e à liberdade.
Foto: Mikhail Evstafiev

Qual valor?

Andam a dizer por aí que o hino dos jornalistas (sem valor em seus diplomas) é:

"Você não vale nada, mas eu gosto de você!
Você não vale nada, mas eu gosto de você.
Tudo que eu queria era saber por que,
Tudo que eu queria era saber por que."

terça-feira, 23 de junho de 2009

Desejo de ser traído

O homem chega em casa,
Na residência que não mora mais.
(Decidira que assim seria,
Desde que passara a ter desentendimentos com a esposa.)

Entra, percebe um barulho estranho, vindo do banheiro.
Como se houvesse alguém além da mulher em casa.
E havia mesmo.

Um rapaz de quase de 30,
Vinte anos a menos do que ele,
Cantava no box, acompanhando o som alto da sala.
Tomava banho sossegado,
Usando o xampu dele, o sabonete dele.
E provavelmente até sua toalha.

Surpreendido, o rapaz sentiu-se confuso.
(Escondia a nudez? Começaria a defesa?...)
O homem que acabara de chegar também estava confuso.
Este seguiu os rastros ali deixados.

Uma embalagem rasgada de camisinha,
O preservativo utilizado e flácido mais adiante,
Seguido da cueca,
Da calça e, por fim,
A cama.

Mas deitada não estava a esposa.
Ele não fora traído.
(Assim que essa constatação da não traição veio,
Desejou que esta tivesse ocorrido de fato.)
Era a filha,
De quinze anos.
Que tinha aquele cara como ficante já há um mês.
“Sem essa de idade, né pai?”

Em resposta, o pai pegou as roupas do ficante,
E chamou a polícia.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Esquizofrenia

Mulher decidida, daquelas de eventos.
Ia completar mais um aniversário.
O primeiro ano, desde que fizera 30.
De presente, descobriu seu namorado tinha outra.
Rompeu tudo. Acabou.

Ele, o traidor, sem aceitar,
Foi atrás dela,
A insistência foi mais longe e profunda:
Dezenas de facadas nela.
O famoso “Se não é minha, de ninguém será!”

Ela fica fora do mundo por um tempo.
Quase não volta.
Quando o fez, se viu em meio a surtos.
Transtornos, desvios e momentos em que saía de si mesma.
Aliás, nunca mais fora a mesma.
Marcas...
Traumas.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

De jornalista a contador de histórias

"Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área."

Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, para defender a aprovação da Lei de Imprensa (aprovada ontem 17/6), que determina que jornalistas não precisam mais de diploma para exercer a profissão.

Ao fotografar

"Muitos me perguntam como é que faço tão belas fotografias.
É simples.
Eu sempre digo:
'Quando vou registrar, faço de tudo,
De tudo para não estragar o que Deus fez.'"

Frase de Alyson Montrezol, fotógrafo de Praia Grande.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Explosão na parada

Domingão, 14 de junho.
A 13ª Parada do Orgulho Gay em São Paulo.
Orgulho e a busca por direitos.
Muitos direitos.

Sobretudo o direito de ter direitos,
Sempre que pessoas que não toleram sua existência,
Partirem para ataques, agressões, violências.

Para isso, parece que alguns preconceituosos,
Para testarem as atuais leis que beneficiam gays e afins,
Resolveram soltar uma bomba,
Feriram pelo menos 21 pessoas,
Nas imediações do Largo do Arouche.

Mais adiante, um rapaz de 17 anos foi agredido por homens desconhecidos.
Na rua, sangue e pequenos recortes de roupa sobraram,
Para evidenciar o traumatismo craniano que sofrera.

Agora é ver se o teste feito por possíveis homofóbicos,
Dará certo ou não.
Haverá investigações? Punidos?
Um deles diz,
“A pessoa que arremessou não sabe quem estava ali,
Se era gay ou não. Somos todos pessoas.”

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Morte inevitável

Após a raiva de ter perdido um voo no Brasil para a França,
Sentiu-se aliviada em saber do acidente em que estaria envolvida,
Se caso tivesse chegado a tempo para o embarque,
O que ocorreu com 228 passageiros.

Não sabia que seu alívio não duraria muito.
A senhora acabou por envolver-se em um acidente.

O carro em que estava, na Áustria,
Bateu em um caminhão.
Morte na hora para ela.
Seu marido, que também perdera com ela o voo à França,
Fica em estado grave.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um trocado para ajudar

Ela não tem nada.
Entre suas escolhas para esta noite estão
Em qual semáforo irá pedir dinheiro,
Ou em qual lugar ela terá mais lucro.

Agora, ela está no ônibus.
Olha as pessoas que entram,
Que saem.
Sorri, fecha os olhos,
Às vezes pensa que realmente existe.
É quando alguém estranho a olha,
Estranhando o sorriso dela,
Em sua sujeira e falta de cuidado próprio.

Agora, ela olha para o banco de trás.
E um rapaz a olha, de frente.
Belos olhos observando,
Tentando adivinhar o que "essazinha" busca nele.
É quando, por um pequeno instante,
Ela pensa que faz parte da vida dele.

Fica tarde, ela ainda tem fome.
Todo o dinheiro que conseguiu
Não foi o bastante para a alimentar,
Em seus desejos naquele dia.

O ônibus chegou onde tinha de parar.
As pessoas estavam descendo.
Ela, mesmo contra sua vontade,
Também tinha de sair dali.
É quando ela realmente percebe que está só.

E assim tem estado há muito tempo.
Os belos olhares para ela,
Que na verdade eram de estranhamento da parte dos “olhadores”,
Não foram suficientes para lhe dar companhia agora.

É hora de dormir.
Sem olhares,
Sem comida, dinheiro, companhia.
Sem ter nada, além de sono.



Na canção, "Menino das laranjas" (Théo de Barros), com Elis Regina:



Na outra canção, "O menino do amendoim" (José Messias), com Trio Esperança:

terça-feira, 9 de junho de 2009

Substituição

Uma ligação, telefonema.
Uma conversa inesperada,
Uma proposta alimentada.
Uma noite a dois no apartamento dele.
Para quebrar a noite de domingo.

Transa boa,
Aliás, única.
Sem pudores,
Mesmo sendo entre desconhecidos que eram.

A tradicional conversa pós-tudo, lado a lado,
Na cabeceira da cama.
Antes das vestes retornarem,
Aos corpos (suados) aos quais pertencem.

“Nisso tudo, não te falei uma coisa...”,
Inicia um deles, de lençol sobre sua nudez.
“O quê?”, teme o outro, que veste a cueca.
“Eu tenho uma namorada!”
Surpresa e silêncio.

“Quem não dá assistência,
Abre concorrência,
E perde a preferência”,
Prossegue, em meio a um sorriso,
Daqueles de quando o cara acha que diz algo óbvio.

Sem saber o que dizer,
Ele continua o papo com o cara.
Sabendo que também não pode salvar o mundo.
Sai, então, com mais essa para sua coleção.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Homem também chora

Ele saiu com o casal que há tempos vem trocando mensagens.
Um divertimento moderno a três, após uma leve prévia na semana passada.
Um quarto de motel, conta rachada entre ele o marido dela.
Para os dois, seria a primeira vez que incluíam um outro cara na relação.
Para ele, o incluído, não se tratava de estreia. Há tempos.

O clima aconteceu rápido com o novo elemento na cama,
E a ajuda de uns comprimidos,
Rolou duas vezes seguidas.
Uma parada para conversa, o trio resolveu se conhecer.

No papo, ele fez algo diferente, se abriu ao casal.
Disse sobre a existência de sua esposa,
Falou sobre dificuldades que ela vem enfrentando,
Com diversas idas a hospitais, por problemas ainda não identificados.
Fez ainda um pequeno relato de suas décadas ao lado dela.

Esse tipo de conversa causou um efeito estranho nele.
Mesmo sobre efeitos de estimulantes,
No auge da noite, que pretendiam estender por mais horas,
Mesmo com toda experiência em saidinhas com casais,
Sentiu-se mal, mas consigo mesmo. Nem deixou transparecer aos namorados.

Por fim, ele vai para o banheiro,
Ter suas lágrimas escorrendo junto com a água do chuveiro,
Pois ele também chora.
Enquanto isso, deixa o casal na cama, que a essa altura estava empolgado,
Nem sequer notaram a turbulência em que o cara experiente se enfiou.

Para ele, ficou claro que nessas horas não deve falar de seu lado pessoal.
Ou que deve começar a pensar nesse tipo de relação que leva.
Pesar as aventuras que tem com mulheres diferentes,
E as saídas com casais,
Enquanto sua mulher está em casa.

Talvez fique com a primeira opção,
É a que mais sabe fazer,
É a mais fácil de cumprir.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Manias de cada um

É em tempos de desastres aéreos que eles lembram de reforçar ainda mais o medo que têm.
Desde que tornaram-se pais, sentiram o peso de ser responsáveis por alguém.
São três crianças, pelas quais nutrem um amor incondicional.

Tiveram a sorte de trabalhar juntos,
Na verdade é o meio em que se conheceram.
Quando vieram os pequenos,
Uma nova mania foi agregada à vida do casal.

A cada viagem a trabalho,
Em que era necessária a presença de ambos,
O voo era feito de forma separada,
Em aviões diferentes. Medos separados.

A regra se estendeu às viagens de férias da família.
Ficava difícil entender e também de planejar.
Quais dos três filhos iriam com a mãe ou com o pai?
A certeza é que pai e mãe nunca viajariam juntos.

Para eles, trata-se de uma segurança,
Para qualquer ocorrido trágico que venha a surgir na viagem de avião.
Se um dos aviões cair, explodir ou se acidentar,
Nunca matará pai e mãe ao mesmo tempo.
E assim, a certeza de que os filhos nunca ficarão totalmente órfãos.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Quase assalto

Foi sentar-se na praça em frente à praia,
Precisava demais dar uma respirada de seus problemas, consigo mesma.
No banquinho escolhido, dois rapazes chegaram.
Para ela, era assalto na certa.

Ela começa a rir, mas não era de nervoso ainda.
Um dos rapazes fica bravo,
“Tá olhando o quê?”
"Estou olhando você", disse a menina que conseguira segurar o riso.
"A gente veio aqui pra te roubar", disse ele.
"Tudo bem", disse ela em resposta, nunca deixando de olhar para ele.

A cena muda.
Eles começam a lançar perguntas,
E a moça, passa a chorar.
Eles explicam que colocariam uma arma na cabeça dela,
E pediriam o celular, mas haviam desistido disso.
“Porque você olhou pra gente.
Ninguém nunca olhou pra gente.”

Mais choro dela, agora de medo.
Na conversa travada,
Um deles tinha 21 anos (mais de dois deles na cadeia).
O outro, nada revelou.

A essa altura, os assaltantes se preocupavam:
“Quer que a gente te leve em casa?”
Recusada a oferta, a garota quis saber porque eles assaltam.
“Porque a tentação a grande e o dinheiro é pouco.”

A menina é engajada em projetos com comunidades e bairros,
Além de ser defensora do meio ambiente.
Chegou até a pedir contatos dos jovens,
Mas por fim, deu seu endereço de e-mail.

Ela acredita que um olhar foi o fundamental.
Não somente para que impedisse de ter pertences levados,
Mas para mudar o dia daqueles dois,
Que sempre marginais,
Nunca sentiram-se como seres existentes.

Quando olhados, sentiram-se diferentes,
E esqueceram-se até da tentação que tinham,
Em assaltar, roubar. Crime.

Música de Haydn

Franz Joseph Haydn.
Nascido em 31 de março de 1732.
Enquanto criança, era admirado por sua voz.
Era soprano, em um coro em Viena, Áustria.
Aos 18, sem ter mais cor vocal como antes, foi expulso do grupo.
Viveu na rua.
Nas voltas, conseguiu chegar a mestre de capela, coordenando importantes orquestras de câmara.
Teve Wolfgang Amadeus Mozart como um grande amigo.
Mesmo 24 anos mais velho que o garoto, nele tinha amizade recíproca e única.
Haydn considerava Mozart um gênio sem igual.
Para Mozart, Haydn era mestre.

Certa vez, Haydn devia ir a Londres,
Mozart tentou fazê-lo ficar, pois ele estava doente.
Mas Haydn iria mesmo assim.
Ambos se despediram, pensando que poderia ser a última vez.
E foi mesmo.
A surpresa maior é que Mozart (e não o adoentado Haydn) morreria naquele inverno de 1791, aos 35 anos.

Haydn ainda viveria.
De volta a Viena, começa a ter sinais de debilidade.
Entre as peças do considerado auge de sua carreira, está “A Criação”.
Em 31 de maio de 1809 morre em casa,
Aos 77 anos.
Religioso, sempre colocava ao final de seus manuscritos alguma expressão,
Como “Laudate Deo” (“Glória a Deus”).
Mais tarde, Haydn, Mozart e também Ludwig van Beethoven,
Seriam considerados a "Trindade Vienense" da música.
Um pouco do barroco e romântico.

Entre as obras, uma é preciosa: “A Criação” ( do alemão “Die Schöpfung”).
O oratório, de 1797, que explica o surgimento do mundo,
A partir do livro Gênesis (da bíblia) e do poema "O Paraíso Perdido", de John Milton.

Em algumas partes é possível visualizar, entre os instrumentos de sopro, o surgimento do Caos,
Ou ainda a criação dos elementos, onde céu, terra, mar, animais,
Vão sendo criados, vivos em cada nota, até chegar ao amor de Adão e Eva.

Em 2005, Coro e Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo interpretou a peça,
Entre os solistas, o baixo português João Fernandes.
Belo timbre, notas graves e naturais.
Carisma, expressividade ao máximo,
João Fernandes era mesmo o destaque do grupo,
Que tinha ainda a soprano Rachel Harnisch e o tenor Jörg Dürmüller, ambos suíços.
Mas João cativou, muito além da técnica.
Um misto de menino audacioso,
Com seriedade única, na medida que era exigida!
Carisma mesmo.
Talvez por ser português, próximo ao brasileiro.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Boas intenções

Ônibus quase lotado.
Todos os lugares sentáveis ocupados.
Muitos de pé.
Um dos lugares quase no fundo do coletivo fica desocupado.
Alguém iria descer.
De repente uma comoção.
“Deixa o lugar para aquela gestante ali, ó.”
Diz uma das mulheres, em pé.
“Chama a grávida!”
Defende outra que está sentada, ao mesmo tempo da primeira.

Nisso, boa parte do veículo já olhava para a barriguda.
“Eu?”
“Isso, você! Afinal, está precisando.”
“Não, não quero sentar.”
Uns observadores compreenderam,
Mas as bem intencionadas, não.
“Senta menina, você está grávida.”
A moça fecha os olhos e faz aquela cara,
De quem desejaria abrir um imenso buraco,
Para nele entrar.
“Não, não estou grávida.”
Respondeu com a máxima simpatia que pode.
Silêncio no ônibus.
A tá, é que sua roupa é larga.
Mesmo assim, não havia conserto para a situação.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Saindo da rotina

Há mais de um ano teve um surto esquizofrênico.
Ficou internado por meses em hospital psiquiátrico.
Foi terrível.

Lá, quebrou cama, aparelhos, árvores, tudo o que via.
Bateu nos enfermeiros, nos médicos.
Só não conseguiu rasgar a camisa de força.
O pano era forte.

Hoje a esquizofrenia passou,
Os mensageiros foram embora.
Ele passou por tudo isso e ainda assim não perdeu sua personalidade.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Necessidades essenciais

Após um programa de rádio, feito por portadores de necessidades especiais,
O locutor, portador de síndrome de down, vira para um fotógrafo que acompanha as entrevistas e acabara de elogiá-lo.
“Cara, eu penso exatamente como você, tenho os mesmos desejos, anseios,
Mas na hora de passar para fora, de falar, de expressar,
Não sai nada. Pelo menos não do jeito que está aqui dentro,
Não do jeito que eu queria.”

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sonhar sem ter de pedir desculpas

Para um bom fim de semana,
Mesmo quando tudo trama para o contrário,
Vai um trecho da letra da super canção "Sai dessa" (Ana Terra/Nathan Marques),
Na super voz de Elis Regina:

Sonhei, como faço todo dia,
Como você não sabia
,
meu senhor, não levo a mal.
A beleza, o amor, a fantasia.
O que tece e o que desfia não se aprende no jornal.

Hoje eu sonhei, mas não vou pedir desculpas.
E nem vou levar a culpa de ser povo e ser artista!
Sem essa, moço, por favor não crie clima.
Seu buraco é mais embaixo, nosso astral é mais em cima!



E, ainda, para não cair no esquecimento,
Um som de autoria de Zé Rodrix (cantor e compositor),
Falecido na madrugada de hoje, aos 61 anos.
"Casa no campo", uma das suas, muito famosa também com Elis.
Aqui, destaque para o belíssimo arranjo de cordas,
Tristemente perfeitas em "Eu quero carneiros e cabras, pastando solenes, no meu jardim..."

Sorte

Saiu para o primeiro encontro com o cara da internet.
Tudo certo até então.
Encontraram-se no calçadão em frente à praia.
Inverno.
O frio é leve e o bairro é deserto,
Baixa temporada.

Um misto de timidez e desejo,
Toma conta dos dois.
O papo flui muito bem,
Provavelmente se estenderia para adiante.

Mas o clima se transforma.
Medo e apreensão tomou conta de ambos.
“Os dois, passem o celular e a carteira!”
Sussurrou um dos ladrões, bem de perto,
Para parecer íntimo, caso alguma alma viva que passasse ali e estranhasse.
Ninguém passava!

Por fim, uma pequena quantia retirada das carteiras,
Além de celular de um e de outro.
“Mano, devolve esse celular velhão, o cara deve precisar.”
Retruca um dos marginais.
Celular velho devolvido.
"Uffa! O meu não foi!", pensou.

Azar.
Encontro acabado.
Sem previsão ou possibilidade de repeteco.

Top 3: Barroco

Barroco, fundamental e belo!
Século XVII e até XVIII.
Veio como um redemoinho em época da exaltação da técnica racional acima de tudo.
Tratava-se da emoção, à simplesmente técnica.

Nas telas, Michelangelo M. Caravaggio (1571-1610),
Nas esculturas, Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)
E nas construções, Francesco Borromini (1599-1667).



Caravaggio mexeu com os brios de alguns artistas da época.
Pintou santos como personagens comuns,
E seus milagres como eventos do cotidiano.
Teve o hábito de brincar com o “chiaroscuro” (do italiano claro/escuro, luz/sombra).
Utiliza-se sempre de uma luz crua que recai sobre o foco principal, fazendo o admirador prestar mais atenção às emoções.
Nas pinturas religiosas, ele chocava.
Escolhia mulheres de rua, homens quaisquer e prostitutas,
Para se tornarem os mais belos modelos para santos, virgens e seus milagres.
Subversivo, tido como traidor da arte, chegou a pintar como fugitivo,
Procurado por homicídio.
Mas, para grandes artistas de seu tempo (como Rubens, Velázquez e Rembrandt), Caravaggio era visto como audacioso, inovador e mestre.



Bernini moldava fácil em argila e mármore.
Fontes, arte religiosa e a Basílica de São Pedro.
Em sua versão de Davi, diferente de Michelângelo,
Ele tira da pedra movimento e tensão.
A imagem, ao morder os lábios em violência, parece se libertar da forma de escultura!
Faz com que o observador até se esquive, ante sua ira.
Em “O Êxtase de Santa Teresa”, obra prima do auge barroco,
Controvérsias surgem na observação.
Teresa tinha visões e ouvia vozes.
Acreditava que fora transpassada por um dardo de um anjo, que instituiu nela o amor divino.
A coisa era forte e chegava à beira do erótico.
Na escultura de Bernini, Santa Teresa parece quase morrer,
Flutuando em uma nuvem,
Mostrando um misto de êxtase e estafa.
Dinâmico, Bernini parece fazer a carne do mármore branco pulsar.
Já na Basílica de São Pedro foi onde ele passou grande parte de sua vida trabalhando.
Destaque para quatro anjos colossais de bronze, em quatro colunas no pálio da Basílica, de altura aproximada de um prédio de dez andares.









O que Caravaggio fez com a pintura, Borromini fez com a arquitetura. As paredes davam a sensação de receber uma luz estroboscópica, que mesmo paradas, parecem em movimento.
Um gênio rebelde, emocionalmente perturbado – o que levou a suicídio.
Enquanto Bernini costumava ter 39 assistentes, em seus projetos rápidos,
Borromini preferia cuidar, por si só, dos detalhes mínimos de suas obras.
Três nomes. Destaques de uma época admirada por muitos!


Fonte: livro: Arte Comentada (Carol Stickland/John Boswell)

Partidas

Ela lutou a vida toda.
Casou-se, teve filho.
Perdeu o marido em desastre de carro.
Já não tinha trabalho.

Procurou, tentou ofícios.
Sem sucesso.
Quando a proposta salarial não era boa,
Era o modo de trabalho que não compensava.

Resolveu mudar!
Deixou o filho com os pais.
Embarcou na ideia de trabalhar em alto mar.
Viveria temporadas de nove meses em cruzeiros marítimos.

Juntou dinheiro nesse tempo de muito trabalho.
Deu mesmo a volta por cima.
Conquistou sua casa, carro, tranquilidade.
Ficava fora de casa por muito tempo,
Deixava saudade e a levava também.
Mas não podia negar que o sucesso havia conquistado.

Certa vez, em um fim de contrato,
Desembarcou em casa, de volta.
Seus pais, radiantes e ansiosos por demais.
Mal podiam esperar.

No porto, beijou mãe, filho.
Beijou o pai, que caiu de repente.
Morreu de infarto, ali mesmo.

Um abraço e um beijo,
Foi o máximo que ele conseguiu esperar.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um dia no mangue






Registros de uma manhã dedicada a conhecer.
Projeto desenvolvido pelo grupo Caiçara Expedições, em parceria com o Núcleo Regional de Jornalismo Ambiental de Santos e Região.
Jornalistas tendo contato com aspectos da região de manguezal, existente em Praia Grande, litoral de São Paulo.
A grande maioria deles nunca teve contato com qualquer ecossistema.

As descobertas vão desde como remar em uma canoa canadense, até questionamentos sobre a imensidão de novidade viva que se vê a cada parada.

Roteiro de três horas remando em pouco mais de um quilômetro e meio de trajeto, entre São Vicente e Praia Grande.
Instigante e também cansativo. Mas totalmente válido.

Um ronco é ouvido ao longo da região. Perguntam até se seria jacaré. Mas não. São os chamados soluços do manguezal, onde o ar nos buracos feitos pelos caranguejos ressoam toda vez que atingem a superfície.

Guarás Vermelhos (vermelhíssimos), Garças Brancas e Azuis entre outras aves exibem-se aos que chegam para visitá-las.
Em momento de susto elas trocam de lugar, formando no céu um misto de branco, vermelho e azul (chumbo).

As árvores, com raízes à mostra são tão firmes quanto às que conhecemos em terra.

É nessa hora que vemos como somos ligados ao natural, à natureza.

Vemos também o quanto ela é imponente e superior a todos nós.

Eles, aves e vegetais vivem ali, num mundo a parte, sem nunca sair de seu habitat, para incomodar qualquer humano, no perímetro urbano bem ali ao lado.

Já os homens, ao contrário, teimam em invadir, modificar, poluir, degradar e destruir o ecossistema.

























Super fotos da também jornalista Nara Assunção
Confira ainda a matéria na íntegra feita para o jornal Gazeta do Litoral, que está publicada no blog da Revista Jundu.