sexta-feira, 31 de julho de 2009

A blusa amarela de Maiakóvski


Para o fim de julho, uma transcrição de palavras de um de meus poetas favoritos, Maiakóvski, russo, que teria hoje 116 anos (7 de julho de 1893 - 14 de abril de 1930 [já publiquei sobre ele aqui e aqui também]). Esse poema fala de uma blusa especial para ele. Eram muitos que se referiam a Maiakóvski como "um grandalhão vestido numa blusa amarela". Todos o conheciam por conta dessa vestimenta, que, por vezes, dava a ele um visual extravagante. Mas ele nutria mesmo um forte apego por esse acessório.

A blusa amarela
(Escrito por Vladímir Maiakóvski, em 1913. Tradução de Emílio Carrera Guerra)

Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevski¹ mundial com passo pachola²
Todo dia irei flamar qual D.Juan frajola

Deixai gritar amolengada de sono:
“Vais violar as primaveras verdejantes!”
Rio-me, petulante, e desafio o sol!
“Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!”

Talvez seja porque o céu está tão celestial
E a terra engalanada³ tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

Mulheres que amais minha carcaça gigante
E tu, que fraternalmente me olha, donzela.
Atirai vossos sorrisos ao poeta
Que, como flores, eu os coserei
À minha blusa amarela
___________________________________________________________
Na imagem acima e nas de baixo, Maiakóvski vestido em sua sempre blusa amarela:


Notas:
¹Nevski, de Nevsky. Referência ao príncipe Alexandre Iaroslavitch Nevski. Na Batalha do Neva, em 1240 Alexandre salvou a Rússia de uma invasão inimiga. Ele, aos 19 anos, recebeu o nome de "Nevsky" (em russo, "do Neva"). Depois disso, Nevski foi muito bem sucedido na Batalha do Lago Peipus em 5 de abril de 1242, quando expulsou invasores germânicos, cavaleiros teutónicos (ordem militar, vinculada à Igreja Católica, formada na Palestina, na época das Cruzadas, [fins do século XII]).

²pachola (ó):
Substantivo fem./ masc.
1. Pessoa boa, simples, ingénua, para quem tudo está bem.
2. Pessoa preguiçosa, vadia.
3. Pessoa chalaceadora, gracejadora, brincalhona.
Adetivo fem./masc.
1. Bom; bonito; embelezado.

³ engalanada: engalanar
Verbo
1. Ornar de galas.
2. Ornamentar.
3. Ataviar.

Adjetivo (Engalanado)
1. Ornado de gala; embandeirado.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mérito mundial


A seleção brasileira de vôlei entra em cena
E a emoção sobe.
A vibração é total,
Passa através da tela!
Como se a partida fosse disputada no quintal de casa.

E como defendem nossas cores...
Como valorizam a modalidade,
Driblando o preconceito e a falta de reconhecimento.
Entre eles, uma mistura de meninos experientes
E outros recém-chegados.

Ainda são daqueles que jogam por amor, por honra,
Sem deixar que contratos milionários apareçam mais do que o esporte.
E assim chegam oito vezes ao pódio mundial.

Com eles, há a sensação de que a vitória é certa (e merecida).
E sempre a segurança de que conosco ninguém pode.

É orgulho ao extremo,
De fugir ao alcance.
De levar às lágrimas nos passes,
Nos pontos ganhos, no lances.
Emoção que segue até o hastear da bandeira
E o executar do hino.

Fotos: Uol

segunda-feira, 27 de julho de 2009

União



Ela cresceu ouvindo:
Noiva que come na panela
Terá chuva no dia do casamento.
E não deu outra.

Desde o início do dia,
Chegando à massagem especial,
Ao fazer o pé, mão, cabelo, maquiagem.
As gotas estavam lá, do lado de fora da janela,
Persistentes, com se dissessem:
“Não liga não, hoje não temos horário para ir embora.”

Isso não tirou em nada a beleza do dia.
Não diminuiu em nada a importância da ocasião.
Nem sequer o anúncio do cerimonial,
Que fez questão de lembrar aos noivos que eles precisavam se confessar.
Ou não entravam. Normas da religião.

Entra um religioso no carro da noiva,
Expulsa o chofer e ouve a moça.
Corre o noivo ao confessionário,
Antes de fazer sua entrada com a mãe.

Passada a correria,
No altar, todos eram nervosismo e comoção.
Como estava lindo o casal!

O riso veio solto,
Quando o padre evidenciou que a aliança recém-trocada
Estava na mão errada do noivo.
Ela teria colocado no dedo errado?
Ou fora ele que estendera a mão trocada?
Tudo só contribuiu para que a cerimônia fosse bela
E única.

Nada disso importava,
Pois os jovens namorados,
Agora casados,
Recebiam um mundo de bons desejos,
Em abraços, beijos e palavras.
Para levarem à nova vida que acaba de começar.











Fotos: Eli Carlos Vieira

sábado, 25 de julho de 2009

Fogo azul


Um dueto perfeito.
Caetano Veloso e a mexicana Lila Downs!
A primeira apresentação de um brasileiro no Oscar,
Neste caso, o ano era o de 2003.
Época em que a canção “Burn it blue”*, tema do filme Frida,
Concorria a melhor canção.

Mesmo não levando o prêmio,
Os brasileiros e o mundo
Presenciaram uma parceira memorável, única.

Arranjo acelerado por violões e violas, que começam na surdina,
Cresce e parece sempre em fuga.
Caetano, bem vestido, mesmo nervoso e tremendo,
Não decepcionou. Um inglês nítido, pausado e consciente,
Aliado a seus diversos gestuais e conhecidos vibratos,
Driblava e entrava em contracanto com o espanhol da parceira.

Em uma parte, enquanto é coberto com a voz feminina, no papel de terça,
Veloso sobe a nota e passa a ser a própria terça, mais aguda ainda.
No desfecho, após diversos desencontros,
Os idiomas se fundem, os cantores fazem as vozes ecoarem,
Como se fizessem ensurdecer o ambiente.

Então, a respiração forte do baiano,
O sorriso da mexicana,
E o alívio do primeiro brasileiro naquele palco.




*Composição de Elliot Goldenthal e Julie Traymor

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Não reagente

Todo semestre é uma luta no laboratório de exames.
Desde que quis viver de acordo com o que é naturalmente orientado,
Conheceu também certo riscos.
Ganhou medos e mais precauções.

Janelas imunológicas,
Contatos de risco,
Preservativos que faltaram ou não foram eficazes.

Escolhas e consequências,
Culpas e ansiedade.
Cogitações, possibilidades.

No fim, diante da mesa,
O resultado é um só.
Só pode ser um.
Negativo de novo.

E o alívio retorna,
A vida retorna,
A saúde.
Pelo menos até o próximo teste.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sabedoria infantil

Criança é original em tudo.
Sem malícia, diz as coisas porque quer dizer e p(r)onto.

Durante uma visita de crianças da rede básica de ensino,
Ao posto do Corpo de Bombeiros da cidade,
O instrutor, salva-vidas, paciente, dá dicas de como prestar primeiros socorros,
Em caso de afogamento e emergências.

Ao utilizar um manequim de plástico,
Para simular aplicação de técnicas de respiração e reanimação,
Entre as normas, está a de utilizar uma espécie de tubo ou máscara.
Ela possibilita que o socorrista, ao realizar a respiração no socorrido,
Faça o procedimento sem contato direto com a boca.
Questões de higiene, precaução.

Uma das crianças estica o dedo, para perguntar.
Na verdade era uma colocação urgente a ser feita:
“Tio, quando é respiração boca a boca em uma mulher você não coloca essa máscara, né?”

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Contagem regressiva


A fase é para mudanças.
Porque é preciso e esperado.
De ares, de mares. De (m)ares.
Escolhas, decisões, trocas,
Provisórias e (quem sabe) permanentes.
Quem sabe?

Faltam 100 dias agora.
A certeza é quase total.
Para a hora do embarque
E a descoberta do novo.

Será hora de trocar temporariamente,
A vida de jornalista,
Pela de aventureiro e bellboy,
Mensageiro de navio.
Para ver, sentir, experimentar.
TRABALHAR!
Para retornar com a bagagem cheia.
De sonhos, expectativas e novos sonhos.

É preciso arriscar enquanto se pode,
É preciso tentar enquanto é possível.
Não se pode recusar, sem antes conhecer.
Não há como conhecer, sem vivenciar.
Será hora de se jogar,
Cair no mar.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Mobilização suspeita

O esquema é especial.
Manhã pós feriado, no bairro Boqueirão,
Corredor comercial em Praia Grande.
Notícia policial.

Prédio bloqueado, cercado e evacuado.
Muitas viaturas e até o helicóptero pairava sobre a cena.
Diversos homens fardados,
Armados e de escudos de proteção.

A Força Tática invadiu o edifício,
Vasculhou todas as salas.
Após 40 minutos de procura: nada.
Foram ao telhado do prédio,
Mais nada.

A essa altura, o público já estava presente.
Aglomerado, querendo saber o que se passa.
Uns citam uma morte no prédio,
Outro curioso diz que são dois mortos e muitos feridos,
Outro acredita ainda que nada houve.

O policial sai do prédio e diz que nada ocorreu.
O público exclama um sonoro desapontamento,
“Ahhhhhhhhhhhhhhh...”

O fato é que nada houve mesmo.
Um homem entrou em uma das salas do prédio.
Queria se informar, mas perguntava demais.
Isso causou desconfiança na atendente.
Até que o rapaz coçou sua barriga.
“É um assalto!!!”, berra ela, fechando as portas,
Alarmando o prédio inteiro, por causa de um gesto suspeito.
E deu no que deu. Em nada.

As pessoas andam mesmo vendo muita violência na TV.
Ao passo de sentirem-se a todo momento,
Em uma cena de filme de ação.

E evitam-se nas ruas,
Trocam de calçada até, evitando o outro.
Suspeitam de olhares,
Risos e também coçadas.
Ninguém parece estar a salvo,
Ninguém parece ser inocente.




sexta-feira, 10 de julho de 2009

Antes do Hino Nacional

publiquei aqui sobre o Hino Nacional, sobre sua importância e do poder emotivo que ele influi em mim.
Na postagem citei ainda um fato curioso que é a existência de uma letra adicional que ninguém utiliza mais na introdução do hino. Pois é, a introdução que todos conhecem possuía também uma letra.

Recentemente uma moça chamada Daniele comentou o post, me linkando ainda ao vídeo da Escola de Guardas-Mirins de Ponta Grossa, Paraná. Lá a moçada participa de um projeto chamado “Cidadania: exercitá-la é dever de todos”. Esse programa é responsável por divulgar esta introdução cantada do hino, que muitos não conhecem.
Interessante:



segunda-feira, 6 de julho de 2009

Foi tudo culpa do amor?

Eles dois sempre viveram bem.
Relação estável, discreta, sabida entre amigos.

Mas em um dia desconhecido,
Durante exames de rotina,
Um deles descobre ser soropositivo.

O outro resolveu submeter-se ao teste,
Para comprovar o que já tinha certeza.
Também estava infectado.

De nada adiantaram os questionamentos,
Nem desconfianças puderam haver.
Não que eles, como casal, viviam uma relação aberta.
Mas antes, solteiros, não costumavam contar com quantos saíam.
Muito menos fazer acompanhamento periódico da saúde.

No começo, a coisa foi fácil de levar.
Depois, o relacionamento foi firmado
Na base de brigas e desentendimentos.
Cobranças demais.
Admissão de responsabilidades de menos.

Então, o mais afetado deles
Se aproveita da macarronada de domingo,
E, enquanto a água da massa fervia no fogão,
Pegou nas alças da panela,
E arremessou a água fervente no seu amado.
Sem apagar o fogo. Foi a gota.

Apesar da cena, das queimaduras e marcas,
O relacionamento foi o único a ter fim naquele dia,
Com aquele gesto.
Que resultou na saída do agressor fracassado da casa.

Mas nem a culpa,
Nem o ódio (sobreposto ao amor),
Muito menos o HIV,
Nem o arrependimento.
Nenhum desses foi embora.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Quando tem de ser ou não a hora

Ele andava tranquilo, na manhã de sexta-feira.
Precisava chegar ao trabalho,
Mas não estava necessariamente com pressa.

Ao atravessar uma passagem subterrânea para pedestres,
Ouviu um estrondo vindo de cima,
Da ponte, da Via Expressa.
Algo soou como descontrole e risco.

Um caminhão acabava de colidir na mureta,
Até beijar direto o chão, bloqueando a passagem subterrânea abaixo,
Que o rapaz acabara de cruzar.
Por pouco não foi ele o beijado pelo veículo.

Na verdade, um dos pneus explodiu,
E fez o gigante perder o controle.
Três ocupantes feridos, mas vivos.

E para os amigos que não acreditarem no caso,
Do pedestre que por pouco não foi alvo,
Uma câmera registrou tudo,
E apareceu até no jornal.



Minutos antes, ainda na Via Expressa,
Um outro caminhão trafegava,
Quando viu um homem a atravessar a pista.
Encontraram-se violentamente.

O choque foi fatal para o pedestre,
Que provavelmente estava apressado,
Pelo menos a ponto de não utilizar a passagem subterrânea,
Destinada somente a transeuntes.
Preferiu correr o risco de atravessar uma via perigosa.
Imprudência que para ele, que há minutos estava vivo,
Justificou a atitude de enfrentar os carros em velocidade.


Em um outro bairro, um pacato zelador
Varria a calçada,
Quando foi atingido por uma pedra no olho,
Jogada não sabe de onde.
Achou até que era bala perdida.
Muito sangue, ardência e mais sangue.

Teve sorte, o material atingiu apenas o osso que contorna o olho,
Imediatamente abaixo da sobrancelha.
Deixou um pequeno roxo e inchaço.
“Por pouco não atinge minha visão”,
Ele reflete.
Por pouco mesmo.
Fotos: Edmilson Lélo

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ajudando a partir

Não é qualquer um que está preparado para mudar radicalmente de vida. Raros também são os que fazem essa alteração por decisão própria, como se fosse um evento agendado a curto ou médio prazo em suas agendas. Se o campo é o profissional então, mudanças bruscas demandam cautela em excesso e provocam até medo, pois estão em jogo elementos como ideologias, status e estabilidade (principalmente financeira). Para sobrevivência profissional, o mercado exige cada vez mais flexibilidade de candidatos, seja para trabalhar como músico de orquestra ou preparador de corpos para sepultamento.

A Partida, (do título inglês Departures e do original Okuribito) é um longa japonês premiado com o Oscar 2009 de melhor filme estrangeiro e que é exibido agora no Brasil. A trama expõe o desemprego de uma forma brilhante, impressionante e muito bem concebida. Ele é, sobretudo, eficaz, fazendo com que aquele que assiste, reflita sobre quando é hora de arriscar na sua vida.
No longa, o experiente ator japonês Masahiro Motoki vive o jovem Daigo, que encontrava-se estável no emprego de violoncelista de uma importante orquestra em Tóquio. Após a notícia de falência do grupo e o desemprego inesperado, o músico se vê em sua primeira decisão mais difícil: deixar de lado, pelo menos temporariamente, o que mais gostava de fazer. E ele o faz, afinal era preciso, acima de tudo, sobreviver.

Após um anúncio no jornal, Daigo vê uma possibilidade. Ao chegar na agência empregadora, percebe que o trabalho não é o que pensava, ou pelo menos não era o que estava habituado a fazer. Mas como nada parecer ocorrer ao acaso, ele tenta, arrisca e ver onde isso vai dar. Nessa busca de um caminho, o rapaz aprende não só o novo ofício de lavar corpos antes de colocá-los no caixão, mas descobre ali sua vida.
A partir da decisão de prosseguir no ofício (que o remunera muito mais do que a orquestra), o rapaz enfrenta não somente tabus e preconceitos próprios, mas também a desaprovação da esposa, de amigos e do bairro em que é conhecido. Dos temores iniciais sobre suas atribuições às ânsias de vômito em algumas situações, tudo é facilmente superado, quando ele realmente encontra o que procurava e o que realmente passou a importar para ele: o sentimento de realização.

E tudo passa a ficar mais simples e mais prazeroso de encarar a cada dia. Daigo percebe que nada pode ser tão difícil ou insuperável, e que não há bom ofício ou profissão vergonhosa: há aquele trabalho em que a pessoa se identifica ou não, simplesmente. E, uma vez nessa profissão de sua vida, o jovem se torna destaque, o mais dedicado e o melhor profissional que se conhece no bairro.
Um filme muito bem feito, que alia sutilmente cenas naturais que levam às risadas e também passagens de fazer chorar - tudo de forma elaborada. Humor na medida certa, no ponto, sem ser gratuito. Drama não por drama somente, mas a ponto de incentivar a reflexão, o "se colocar no lugar", se sentir como o personagem no telão, mas sobretudo se voltar a si, humano. Daquelas obras capazes de mudar pensares, atitudes e levar pessoas a repensarem seus tabus, preconceitos e principais bloqueios. Destaque para a trilha sonora, responsável por grande parte do teor emotivo das cenas - é o violoncelo em destaque.