sexta-feira, 29 de maio de 2009

Boas intenções

Ônibus quase lotado.
Todos os lugares sentáveis ocupados.
Muitos de pé.
Um dos lugares quase no fundo do coletivo fica desocupado.
Alguém iria descer.
De repente uma comoção.
“Deixa o lugar para aquela gestante ali, ó.”
Diz uma das mulheres, em pé.
“Chama a grávida!”
Defende outra que está sentada, ao mesmo tempo da primeira.

Nisso, boa parte do veículo já olhava para a barriguda.
“Eu?”
“Isso, você! Afinal, está precisando.”
“Não, não quero sentar.”
Uns observadores compreenderam,
Mas as bem intencionadas, não.
“Senta menina, você está grávida.”
A moça fecha os olhos e faz aquela cara,
De quem desejaria abrir um imenso buraco,
Para nele entrar.
“Não, não estou grávida.”
Respondeu com a máxima simpatia que pode.
Silêncio no ônibus.
A tá, é que sua roupa é larga.
Mesmo assim, não havia conserto para a situação.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Saindo da rotina

Há mais de um ano teve um surto esquizofrênico.
Ficou internado por meses em hospital psiquiátrico.
Foi terrível.

Lá, quebrou cama, aparelhos, árvores, tudo o que via.
Bateu nos enfermeiros, nos médicos.
Só não conseguiu rasgar a camisa de força.
O pano era forte.

Hoje a esquizofrenia passou,
Os mensageiros foram embora.
Ele passou por tudo isso e ainda assim não perdeu sua personalidade.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Necessidades essenciais

Após um programa de rádio, feito por portadores de necessidades especiais,
O locutor, portador de síndrome de down, vira para um fotógrafo que acompanha as entrevistas e acabara de elogiá-lo.
“Cara, eu penso exatamente como você, tenho os mesmos desejos, anseios,
Mas na hora de passar para fora, de falar, de expressar,
Não sai nada. Pelo menos não do jeito que está aqui dentro,
Não do jeito que eu queria.”

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sonhar sem ter de pedir desculpas

Para um bom fim de semana,
Mesmo quando tudo trama para o contrário,
Vai um trecho da letra da super canção "Sai dessa" (Ana Terra/Nathan Marques),
Na super voz de Elis Regina:

Sonhei, como faço todo dia,
Como você não sabia
,
meu senhor, não levo a mal.
A beleza, o amor, a fantasia.
O que tece e o que desfia não se aprende no jornal.

Hoje eu sonhei, mas não vou pedir desculpas.
E nem vou levar a culpa de ser povo e ser artista!
Sem essa, moço, por favor não crie clima.
Seu buraco é mais embaixo, nosso astral é mais em cima!



E, ainda, para não cair no esquecimento,
Um som de autoria de Zé Rodrix (cantor e compositor),
Falecido na madrugada de hoje, aos 61 anos.
"Casa no campo", uma das suas, muito famosa também com Elis.
Aqui, destaque para o belíssimo arranjo de cordas,
Tristemente perfeitas em "Eu quero carneiros e cabras, pastando solenes, no meu jardim..."

Sorte

Saiu para o primeiro encontro com o cara da internet.
Tudo certo até então.
Encontraram-se no calçadão em frente à praia.
Inverno.
O frio é leve e o bairro é deserto,
Baixa temporada.

Um misto de timidez e desejo,
Toma conta dos dois.
O papo flui muito bem,
Provavelmente se estenderia para adiante.

Mas o clima se transforma.
Medo e apreensão tomou conta de ambos.
“Os dois, passem o celular e a carteira!”
Sussurrou um dos ladrões, bem de perto,
Para parecer íntimo, caso alguma alma viva que passasse ali e estranhasse.
Ninguém passava!

Por fim, uma pequena quantia retirada das carteiras,
Além de celular de um e de outro.
“Mano, devolve esse celular velhão, o cara deve precisar.”
Retruca um dos marginais.
Celular velho devolvido.
"Uffa! O meu não foi!", pensou.

Azar.
Encontro acabado.
Sem previsão ou possibilidade de repeteco.

Top 3: Barroco

Barroco, fundamental e belo!
Século XVII e até XVIII.
Veio como um redemoinho em época da exaltação da técnica racional acima de tudo.
Tratava-se da emoção, à simplesmente técnica.

Nas telas, Michelangelo M. Caravaggio (1571-1610),
Nas esculturas, Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)
E nas construções, Francesco Borromini (1599-1667).



Caravaggio mexeu com os brios de alguns artistas da época.
Pintou santos como personagens comuns,
E seus milagres como eventos do cotidiano.
Teve o hábito de brincar com o “chiaroscuro” (do italiano claro/escuro, luz/sombra).
Utiliza-se sempre de uma luz crua que recai sobre o foco principal, fazendo o admirador prestar mais atenção às emoções.
Nas pinturas religiosas, ele chocava.
Escolhia mulheres de rua, homens quaisquer e prostitutas,
Para se tornarem os mais belos modelos para santos, virgens e seus milagres.
Subversivo, tido como traidor da arte, chegou a pintar como fugitivo,
Procurado por homicídio.
Mas, para grandes artistas de seu tempo (como Rubens, Velázquez e Rembrandt), Caravaggio era visto como audacioso, inovador e mestre.



Bernini moldava fácil em argila e mármore.
Fontes, arte religiosa e a Basílica de São Pedro.
Em sua versão de Davi, diferente de Michelângelo,
Ele tira da pedra movimento e tensão.
A imagem, ao morder os lábios em violência, parece se libertar da forma de escultura!
Faz com que o observador até se esquive, ante sua ira.
Em “O Êxtase de Santa Teresa”, obra prima do auge barroco,
Controvérsias surgem na observação.
Teresa tinha visões e ouvia vozes.
Acreditava que fora transpassada por um dardo de um anjo, que instituiu nela o amor divino.
A coisa era forte e chegava à beira do erótico.
Na escultura de Bernini, Santa Teresa parece quase morrer,
Flutuando em uma nuvem,
Mostrando um misto de êxtase e estafa.
Dinâmico, Bernini parece fazer a carne do mármore branco pulsar.
Já na Basílica de São Pedro foi onde ele passou grande parte de sua vida trabalhando.
Destaque para quatro anjos colossais de bronze, em quatro colunas no pálio da Basílica, de altura aproximada de um prédio de dez andares.









O que Caravaggio fez com a pintura, Borromini fez com a arquitetura. As paredes davam a sensação de receber uma luz estroboscópica, que mesmo paradas, parecem em movimento.
Um gênio rebelde, emocionalmente perturbado – o que levou a suicídio.
Enquanto Bernini costumava ter 39 assistentes, em seus projetos rápidos,
Borromini preferia cuidar, por si só, dos detalhes mínimos de suas obras.
Três nomes. Destaques de uma época admirada por muitos!


Fonte: livro: Arte Comentada (Carol Stickland/John Boswell)

Partidas

Ela lutou a vida toda.
Casou-se, teve filho.
Perdeu o marido em desastre de carro.
Já não tinha trabalho.

Procurou, tentou ofícios.
Sem sucesso.
Quando a proposta salarial não era boa,
Era o modo de trabalho que não compensava.

Resolveu mudar!
Deixou o filho com os pais.
Embarcou na ideia de trabalhar em alto mar.
Viveria temporadas de nove meses em cruzeiros marítimos.

Juntou dinheiro nesse tempo de muito trabalho.
Deu mesmo a volta por cima.
Conquistou sua casa, carro, tranquilidade.
Ficava fora de casa por muito tempo,
Deixava saudade e a levava também.
Mas não podia negar que o sucesso havia conquistado.

Certa vez, em um fim de contrato,
Desembarcou em casa, de volta.
Seus pais, radiantes e ansiosos por demais.
Mal podiam esperar.

No porto, beijou mãe, filho.
Beijou o pai, que caiu de repente.
Morreu de infarto, ali mesmo.

Um abraço e um beijo,
Foi o máximo que ele conseguiu esperar.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um dia no mangue






Registros de uma manhã dedicada a conhecer.
Projeto desenvolvido pelo grupo Caiçara Expedições, em parceria com o Núcleo Regional de Jornalismo Ambiental de Santos e Região.
Jornalistas tendo contato com aspectos da região de manguezal, existente em Praia Grande, litoral de São Paulo.
A grande maioria deles nunca teve contato com qualquer ecossistema.

As descobertas vão desde como remar em uma canoa canadense, até questionamentos sobre a imensidão de novidade viva que se vê a cada parada.

Roteiro de três horas remando em pouco mais de um quilômetro e meio de trajeto, entre São Vicente e Praia Grande.
Instigante e também cansativo. Mas totalmente válido.

Um ronco é ouvido ao longo da região. Perguntam até se seria jacaré. Mas não. São os chamados soluços do manguezal, onde o ar nos buracos feitos pelos caranguejos ressoam toda vez que atingem a superfície.

Guarás Vermelhos (vermelhíssimos), Garças Brancas e Azuis entre outras aves exibem-se aos que chegam para visitá-las.
Em momento de susto elas trocam de lugar, formando no céu um misto de branco, vermelho e azul (chumbo).

As árvores, com raízes à mostra são tão firmes quanto às que conhecemos em terra.

É nessa hora que vemos como somos ligados ao natural, à natureza.

Vemos também o quanto ela é imponente e superior a todos nós.

Eles, aves e vegetais vivem ali, num mundo a parte, sem nunca sair de seu habitat, para incomodar qualquer humano, no perímetro urbano bem ali ao lado.

Já os homens, ao contrário, teimam em invadir, modificar, poluir, degradar e destruir o ecossistema.

























Super fotos da também jornalista Nara Assunção
Confira ainda a matéria na íntegra feita para o jornal Gazeta do Litoral, que está publicada no blog da Revista Jundu.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vale tudo mesmo?

Título e linha fina de matéria de sexta-feira, dia 14, no site Estadão "versus" imagens de Dilma Rousseff nada natural:

"Dilma diz que passa bem depois de segunda sessão de quimio"
Ministra anunciou no início do mês que se submete a tratamento contra câncer linfático

Imagens que ilustravam a matéria:


Será que é válido chegar a esse ponto de ineditismo?

Abuso sexual

Cinco anos de idade.
Foi quando teve seu primeiro abuso sexual.
Não tinha qualquer noção do que se tratava,
Apenas fazia o que o cara mandava.
Este, devia ter 17, no máximo 18 anos de idade.

Para quem é pequeno, qualquer um é encarado como adulto.
E adultos normalmente têm toda a confiança das crianças.

O cara, também por conta disso, usou e abusou.
Uma, duas, muitas vezes.
Dias até. Muitos.
E até hoje está dentro de si,
Em forma de trauma, mesmo 20 anos mais tarde.

Esse crime, cometido por esse monstro,
Não parecia tão mau ao garoto abusado.
Não chegava a doer.
Estranhava, mas não matava.
Era diferente das brincadeiras às quais estava habituado.
Era algo que ele não conseguia entender.

Quem era esse pedófilo?
Sabia que era conhecido da família,
À qual não tem coragem de relatar.
Será que esses abusos sofridos são responsáveis por sua homossexualidade?
Se caso não tivesse tido esse contato precoce com um homem,
O garoto cresceria gostando de mulheres?

Isso ele não sabe.
Tudo o que ele fazia era seguir comandos,
Pensava que era algo normal,

Mas as brincadeiras que ele fazia consigo,
Toda vez que desviava o caminho rumo ao parque,
Para ir direto àquele matagal,
De brincadeiras nada tinham.
E ainda hoje falam alto em seu interior adulto,
Que antes era aquele menininho de lisos cabelos loiros.
E apenas cinco anos de idade.


Produção: Eli Carlos Vieira

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Alugue um amigo


Alugue um amigo!

Essa é nova!
Em um mundo cada vez mais atribulado, com pessoas correndo em todo o canto em busca de seus mais diferentes objetivos, as relações interpessoais parecem ficar cada vez mais difíceis.
Faltam amigos para ir a uma praça e conversar, simplesmente ou fazer aquela viagem de verão. Uma companhia para ir ao cinema, teatro, cafezinho...

Um grupo de quatro amigos criou um site chamado Amigos de Aluguel, que promete acabar com essa solidão e escassez de companheiros de diversão.
Hallan, Pablo, Danilo e Wesley (entre 21 e 22 anos de idade), prometem oferecer um serviço eficaz e SEM SEXO. Eles fazem questão de ressaltar que não se trata de contratação de acompanhantes (que foi associada com um tempo ao termo michê ou até garoto de programa). Trata-se de uma companhia para bons momentos.
No site, cada um tem seu perfil e hobbies, para se adequar às necessidades do contratante. Se o cliente precisa de um amigo para cozinhar, fazer compras e escolher os móveis por exemplo, basta escolher Hallan, e por aí vai...

O preço fica a partir de R$ 120, com depósito de 50% antecipado, para agendar horários.
Para o caso de viagens nacionais ou internacionais, é possível ainda montar um álbum de fotos e vídeos ao lado do novo amigão.
Será que a ideia pega?

terça-feira, 12 de maio de 2009

Cuidado

“Tanto desencanto,
A vida não te perdoa.”

(Lenine, Martelo Bigorna)

Transporte público é para todos

Para uma boa história de cinema...

Um homem atendeu à ligação de uma adolescente.
Ela pedia carona.
Ao chegar ao local, o homem bondoso se viu vítima de um sequestro.
Houve ameaça, duas coronhadas, R$ 600 roubados.
Após colocado por algumas horas em uma casa,
A vítima foi liberada.

Para voltar, o ex-sequestrado foi à rodoviária,
Pegar um ônibus da cidade de Cruzeiro,
Para sua casa, em Pindamonhangaba.

Por incrível que pareça,
No ônibus que ele escolheu utilizar,
Estavam também três dos assaltantes que o maltrataram há pouco.

De dentro do ônibus, a vítima acionou a Polícia Militar,
Que barrou o veículo na rodovia Presidente Dutra, no município de Lorena.

Todos acabaram sendo pegos.
Inclusive os três adolescentes (incluindo a garota que realizara a ligação).
Entre os motivos, sequestro, porte ilegal de arma,
Corrupção de menores, roubo
E formação de quadrilha.

Fiscalização materno-digital

Inclusão digital é super válida em tempos modernos.
Terceira idade e crianças cada vez mais nas fraldas acessam a internet,
E utilizam as mais variadas ferramentas da informática.



Ele vive uma vida de aparências,
Assim sempre foi.
Desde a chamada idade em que se conhece como gente.
Sempre preferiu meninos às garotas.
Sempre escondeu suas reais orientações da família.

A mãe, moderna e conectada à web,
Passou a vasculhar a lista de amigos que o filho tem,
Em um site de relacionamentos.
Nos mais de 300 amigos do orkut,
O coração de mãe percebeu que muitos garotos têm perfis estranhos,
Que denunciariam gostos no mínimo incomuns.

“Ela diz que tem muito cara ‘dando pinta’ de gay”,
Mesmo com a desculpa de que são amigos de sua namorada (de aparência [pois nem um beijo nela ele deu ainda, em anos de namoro]),
Mesmo assim, a mãe ainda está com um pé atrás com os contatos virtuais do filhão.

O rapaz pensa em mudar de vida.
“Vou fazer um orkut novo!”

Até que ponto a fiscalização da mãe é eficaz?
Até que ponto as atitudes do menino são eficazes?
Sua orientação sexual não mudará,
A desconfiança de mãe (que tem um coração que não se engana), também parece que não.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Beleza


Em meio a uma época em que padrões de beleza brasileira parecem ser tirados das piores referências possíveis,
Em tempos em que o silicone é condição primordial,
E que vulgaridade é item fundamental de vestuário feminino,
É possível ainda ver outros níveis de mulheres belas,
Sem necessariamente mostrar mais do que se deve.

Concurso Miss Brasil 2009.
Brega para uns, mas sempre um evento de beleza.
Das mais naturais, às feitas em leves retoques cirúrgicos,
Larissa Costa Silva de Oliveira, de 25 anos, levou o título brasileiro, entre as 27 candidatas.
Madura, e segura de si,
A representante do Rio Grande do Norte chamava atenção,
No desfilar e nos gestos.
Levará o nome das brasileiras ao Miss Universo, em Bahamas.
Na bolsa, R$ 200 mil em contratos,
Carro, joias e roupas.

Rayanne Morais, 20 anos, a miss Minas Gerais,
Foi a favorita desde o início.
Uma beleza intrigante, o que alguns chamam de clássica.
Rayanne fez bonito, mas ficou com o segundo lugar.
Apesar de parecer às vezes atriz demais em suas feições e beleza,
Ela ficaria bem com o título.
Mas não deu.

No currículo de todas as meninas candidatas,
Todas já se formaram ou cursam algum período em universidade.
Faltou um pouco de discursos decorados, típicos do evento.
De paz mundial, preservação ambiental.
Mas beleza não faltou.

Foto: Uol

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Exigir demais

"Eles não podem ser perfeitos em tudo..."
Começa a amiga, no relato sobre a última aventura.

Busca na internet,
Ela segura o suficiente para encará-lo,
Ele certo da cantada infalível que lançaria.
Foram a um passeio real.

Chegaram ao cinco letras,
Como ele queria,
E como ela suspeitava que seria.

Impressões e boa sintonia.
Surpresa.
Boa performance dele,
Até houve entrega sincera dela.

No final, antes de sair,
Ele vai ao banheiro,
Fica na ponta dos pés,
E faz sua higiene ali mesmo,
Na pia.

Ela finge que não viu.
O que não afasta em nada,
Seus pensamentos de decepção.
“Já que não tomou banho depois,
Não poderia ao menos fechar a porta?”

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Atentado contra a mãe

Uma aposentada de 64 anos levou três tiros,
Foi lançada em um precipício.
Mas sobreviveu.

Ferimentos nas mãos,
No rosto e na cabeça.
Retornou à margem da rodovia que faz o trajeto Mogi-Bertioga, litoral paulista.

Denunciou quem comandou o atentado:
Sua filha adotiva, de 32 anos.
Ela foi presa.
Acusada de planejar o crime com outras três pessoas.
Que também foram presas.
(Uma delas grávida e terá o filho atrás das grades).

O motivo para matar a mãe foi simples.
Estava em jogo uma fortuna de R$ 580,00,
A aposentadoria da senhora.
Valor que seria dividido entre os quatro.

A mãe ferida, no leito do hospital, relembra todo o carinho,
Amor e dedicação sem limites,
Dados à mulher,
A quem sempre chamou de filha,
Desde os dois primeiros meses de vida.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Raro

Beijos, amassos e calor.
Muito calor.
Uma camiseta tirada do corpo e uma blusinha jogada de lado.
Então ela fica por cima dele.
“A gente está namorando?”
“Não sei, você não pediu ainda...”
“Então...quer ser minha namorada?”

O pedido saiu ofegante, em um momento de calor intenso.
A pergunta levou pouco mais de duas semanas para sair.
E naquele momento devia ser feita imediatamente, pois era questão de lei para ele.
Ela, rindo, mas recíproca, aceitou. Claro.

“É que eu não faço amor sem estar namorando.”
(Ele disse amor e não sexo!)
Essa é a lei dele, à qual é totalmente fiel.
Após o gesto inesperado, ela entendeu.
Compreendeu porque ele vinha sendo tão respeitoso, cuidadoso.
Mesmo em momentos em que as coisas esquentam,
E saem facilmente do controle.

Resolvida a dúvida da atual situação dos dois,
O amor ainda não rolou,
Mas não foi por falta de calor.
“Eu não tenho camisinha aqui,
Não poderemos fazer amor.”

Sucessões de fatos novos.
A incredulidade, diante de tanta raridade,
Em atitudes, gestos, princípios.

Ambos radiantes consigo.

O feriadão acabou e rendeu muitas surpresas aos dois.
E parece ser só o começo.
De algo que não sabem, mas saberão.
Esperam e vivem, somente.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Virada

Virada Cultural 2009.
Maior do que a Virada Cultural de 2007.
Público recorde – estimativa de 4 milhões de pessoas.
Mais de 24 horas de arte, em suas diversas 800 formas de interpretações.
Opções de diversão e em cada canto da ruas, avenidas, praças, largos.

Shows mais restritos no Teatro Municipal.
Ou representações curiosas de palhaços com máscaras hospitalares, tossindo, espirrando. Traziam à virada a novíssima gripe suína (que pediram para não mais chamá-la assim).

Para quem estava na fila do Teatro Municipal,
Telões e exibição de curtas, filmes do Festival do Minuto.
Segurança pareceu não faltar.
Tumultos, somente de bêbados, drogados e outros que arrumavam brigas entre si.
Muita opção de comida, bebida.

Para muitos, um evento válido para explorar a São Paulo durante toda a madrugada.
Para participantes, possibilidade de ter quantidade maior de público, como é difícil de ser ver em apresentações de balé, por exemplo.

Desfile de tribos, cores, roupas, tudo transmitindo informações.
Demonstrações de afeto entre homens e mulheres,
Na boa e sem recriminação.

Vovôs procurando a direção dos palcos de shows em homenagem a Raul Seixas.
Adolescentes ansiosos por assistirem Tom Zé, em repertório de 1968.

Evento válido, e muito.
Por popularizar, disseminar, levar à rua,
A música, o teatro, dança, cinema.
Que muitos não veriam facilmente em outros lugares.
Um tentativa de mostrar,
Fazer, incentivar, tornar pública,
O que cada um chama e tem para si, sobre cultura.

Cultural

Virada Cultural 2009.
Tumulto para todo o lado.
Grupos de diferentes tribos,
Com algazarras diversas também.

Segurança reforçada,
Para atos de violência.
Mas para outros atos, ninguém estava protegido.

Em locais com grande espera para entrar,
Pessoas furando fila.

Na hora de ter acesso ao prédio, mais bagunça,
Muito aperto,
Desorganização e o desconhecimento do que é fila indiana.

Nos trajetos, a falta de recipientes extras e eficazes,
Para depósito de lixo,
Lixo que não era pouco.
Sem ter um local para jogar,
A rua se torna lixeira.

Em pontos com prédios belos e altíssimos,
Alguns até históricos,
Quando a visão baixava,
Acompanhando os belos contornos,
Dava de cara com um cidadão (um não, muitos) urinando em alguma porta,
Parede, poste, pilastra, coluna, árvore.
Qualquer lugar, menos um dos banheiros químicos disponibilizados.
Que foram instalados aos montes.
O resultado se via em verdadeiras poças nas ruas,
Vindas de fontes humanas que não paravam de jorrar nos paredões.
A constatação era desagradável de saber que pisou naquele liquido duvidoso.

Em outros lugares a impressão que se tinha é que estava tudo liberado, por 24 horas.
O uso livre e aberto de drogas, a indecência e a falta de respeito com pessoas e prédios e estruturas públicas.
Gente caindo em cima de gente.
Pessoas descontroladas.
Outras sozinhas, sentadas em qualquer lugar, vomitando.

E há quem diga que se trata de ações que são da cultura do brasileiro.

Samba

Virada Cultural.
Entre os objetivos do domingo,
Talvez assistir Novos Baianos e, com certeza, Maria Rita.
No palco da São João. Ao ar livre.
A segunda opção estava mais praticável.
O Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz,
Já não dava mais: a bilheteria fechara.

No show de Maria Rita, muita gente!
O último show das 24 horas de vento.
Energia boa, som melhor ainda.
Teve de tudo, samba, baladinhas,
E mais samba.

Surpresas também boas.
Maria Rita de vestido de gafieira,
Muitas tatuagens à mostra,
Em um corpo naturalmente belo e antes nem tanto à mostra.

No telão, detalhes de sua técnica e empostação de voz.
Irreverência, muita irreverência.
E poses, caretas, e muito carão, como uma diva.
Delírio da plateia, que acompanhava as letras.

Foi mesmo para todos os gostos e ouvidos.
Canções fortes e conhecidas do primeiro álbum,
Encontros e Despedidas, Cara Valente, Pagu...
Tons mais doces e maduros do segundo,
Caminhos das Águas, Muito Pouco (de contrabaixo e bateria perfeitos)...
E do terceiro também,
O que, segundo ela, tem mais a sua cara.
No final, uma mensagem entoada por todos.
Em coro de impressionar!

“Não deixe o samba morrer,
Não deixe o samba acabar,
O morro foi feito de samba.
De samba pra a gente sambar!”
Fotos: Rogério Cassimiro/UOL

Público

Nota a nota um rapaz especial toca o piano.
Tecla a tecla, somente com um indicador,
Paciente e certo do que está a tocar.

Umas poucas pessoas o observam.
Ajudam com olhares, que na falta de talento ou técnica,
Tocam, somente, em apoio.

O piano de rua, simples e ao mesmo tempo instigador,
Em uma sala da Estação da Luz,
Ganha vida com o rapaz,
Assim como o ganha em outras execuções.

O rapaz, enfim, chega ao ápice da canção e arrepia!
Mesmo com a simplicidade,
Mesmo com o tocar de um dedo só,
Mesmo com a correria da estação,
Em plena Virada Cultural.

Era o refrão extremamente melancólico,
De Trenzinho do Caipira,
De Villa Lobos, mas também daquele rapaz,
E também de quem ouviu e reconheceu.
E também do guarda da estação,
Da menina que puxou a mão da mãe,
Para ver que brinquedo era aquele.

A música, ao acesso de todos.
O piano de rua, público.
Ao toque de todos.

É questão de sentar-se e iniciar o dedilhado.
Questão de parar e ouvir o clássico.
Sentir e ressoar por todo o dia.

Liquidação


Virada Cultural.
Direto para a fila ao redor e além do Teatro Municipal, um dos pontos mais concorridos do evento.
Fila assustadora para assistir Tom Zé, em sua “Grande Liquidação” (de 1968), mas ainda era preciso enfrentar público de Egberto Gismonti (que se apresentaria antes), que estava na mesma fila. Haja animação, pois eram apenas 21 horas (o show de Tom seria à meia noite).
Foi possível entrar – o que já era um milagre!
Muito aperto, desorganização (foi onde se entendeu como devem se sentir os espermatozóides, na disputa por um lugar no óvulo).
Não houve espaço para conhecer a beleza do prédio.
Mas um bom lugar na plateia.
De repente, uma protestante aos berros, contra a desorganização da Virada, que tenta atrapalhar o início da apresentação.
Mas a recompensa que valeria a noite:
“São, São Paulo, quanta dor.
São, São Paulo, meu amor.”



Arranjos empolgantes, com um bom arranjo de baixo, tocado por um menino.
Falsete do vocal de apoio feminino ruim.