terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sem ninguém para recorrer







Uma regra que se aprende no lar é nunca sair sem dizer para onde se vai, com quem estará, a que horas voltará. Muitos não se dão conta, mas estas precauções são primordiais, tendo em vista que a partir do momento em que se acorda, qualquer um está passível de passar por qualquer situação, que, em alguns casos, pode alterar radicalmente a vida que se leva. É quando o dito popular "para morrer basta estar vivo" tem real significado e probabilidade de acontecer, a qualquer um, em qualquer dia, hora.
O filme "127 Horas" (127 Hours), agarra-se a uma ideia absurdamente simples para conduzir o pouco mais de uma hora e meia em tela. A direção é de Danny Boyle, que dispensa apresentações. Basta dizer que o cara é aquele que causou revolução em "Quem quer ser um milionário?" (Slumdog Millionaire, 2008). Em '127' a assinatura dele aparece nos primeiros segundos. Seu dinamismo e inovação são brilhantemente óbvios no longa, tanto na adoção de divisões da tela em duas e três cenas ao mesmo tempo, ou trazendo, novamente, o maior criador de trilhas sonoras do maior mercado de cinema (a Bollywood), o indiano A. R. Rahman! Parceria fantástica.
A trama gira em torno de um aventureiro incorrigível, o Aron Ralston (James Franco, de "Milk”, 2008) , que, em certos momentos, abdica até um pouco de sua vida social, para viver solitário em montanhas e lugares onde explora seu espírito radical. Este alto conhecimento e segurança no que faz é fundamental para o progresso de sua atividade, sua exploração, descoberta e aprendizado, mas também torna-se seu mal - excesso de segurança rouba certa parcela de atenção a coisas simples que podem caracterizar-se em riscos e acidentes fatais.
A simplicidade está no desenrolar. Em '127' Aron está preso em um local de difícil acesso, onde ele até poderia descer um nível a mais e caminhar rumo à saída de baixo e assim chegar a seu carro e retornar para casa. Mas isso não é possível. E aí está toda a tensão. Apesar de trazer clichês típicos (o sofredor que se vê obrigado a ingerir sua própria urina, água de chuva e manter a bateria de sua lanterna, para assim manter-se vivo) '127' traz o quesito “a mais“. O escalador tem sua mão presa a uma pedra que tem 1/4 de seu tamanho, impossível de ser removida. Impossível.
Com essa condição, realmente impossível de se soltar da pedra, Aron tem tempo para repensar sua vida, que vem para ele em falas antigas, como num filme, onde ele sabe de cor cada texto que agora repete, como um perfeito dublador de si mesmo. Como ele sairia dessa? Será que realmente iria sair? Esta é a pergunta chave.
Um filme exremamente dinâmico (coisas de Boyle).
É iluminado, fresco, jovem como a jovialidade do protagonista James Franco. Lindo como um dia ensolarado de céu cristalino em azul. Não é depressivo, embora motivos não faltassem. É para cima, positivo. Destaque para a trilha sonora, que sequer se aproxima daqueles violinos estridentes, trêmulos, em estacatto, que aparecem em momentos de alta tensão e pânico. Aqui impera a sonoridade de raiz que somente A. R. Rahman traz. Batidas, tom espirituoso, desafiante, tanto quanto a cena da qual se torna fundo.
Válido, '127 Horas' é surpreendente e inesperado. Tão inesperado quanto o relato de desmaios na plateia, durante primeiras exibições em Toronto. Tão inesperado quanto o fato d'ele ser baseado em fatos reais. Muito reais.

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